Especialista com base de atuação em São Paulo confirma que a espada encontrada dia 17 de março no Rio Cricaré, nas Meleiras, é do século XVI. Restaurador de espadas do período colonial e imperial, considerado um dos maiores entendedores de armas militares da América do Sul, Carlos Fernando Parreira Júnior enfatiza que o artefato deve ter pertencido a um nobre, devido às características que apresenta: águia bicéfala, pomo e guarda-mão ricos em detalhes, possivelmente vinda da Península Ibérica, de Toledo, na Espanha, ou de Portugal.

Na lâmina da espada, Carlos Fernando encontrou um desenho adamascado de dragão. “O império português tinha como símbolo a Serpe Alada de Bragança”, sustenta o especialista.

Em solo mateense, o especialista trouxe equipamentos, como poderosas lentes, para estudar os detalhes do artefato. Inclusive ele identificou mais uma característica que sustenta a teoria de que a espada realmente pertenceu a um nobre. Após os procedimentos, encontrou na lâmina um desenho adamascado de dragão, chamado de serpe alada –com apenas duas patas– característico do período colonial português.

“A espada é um mistério. Não temos condições de determinar quem é o fabricante e nem a quem pertenceu. É uma espada muito antiga e valiosa também. O Império Português tinha como símbolo a Serpe Alada de Bragança. Então eu considero que é uma espada original da época e tem uma sintonia com a história, foi achada num local onde houve a Batalha do Cricaré, pode ser que seja a espada de um comandante mesmo” – comentou o especialista.

VISITA AO RIO CRICARÉ

Na quarta-feira (10), Carlos Fernando esteve local onde a espada foi encontrada, na beira do Rio Cricaré, diante do Bar do Zeca, nas Meleiras, acompanhado de Weverton Pirola Martins, conhecido como Beto, que achou o artefato no fundo do rio, e o historiador Eliezer Nardoto.

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R$ 18 MIL

O restaurador Carlos Fernando afirmou que, em contato com um colecionador anônimo do Rio de Janeiro, foi feita uma oferta de R$ 18 mil pela espada, o que ele considera muito baixo levando em consideração o valor histórico do artefato. “Essa peça, quando entrar para a coleção dele, não sai por menos de R$ 180 mil. Para se ter uma ideia, hoje se compra uma espada antiga simples por R$ 20 mil” – enfatizou.

VIAGEM

Eliezer disse que a viagem do especialista Carlos Fernando, de São Paulo a São Mateus, foi custeada por ele, que conseguiu ainda a doação de hospedagem e refeição por dois dias. O restaurador chegou à Cidade na terça-feira (9) e retornou a São Paulo na manhã desta quinta (11).

Carlos Fernando esteve local onde a espada foi encontrada, nas Meleiras, acompanhado de Weverton Pirola Martins, que achou o artefato no fundo do Rio Cricaré, e o historiador Eliezer Nardoto. -Foto: Ademilson Viana/TC Digital

 

Restaurador convoca comunidade a ajudar na busca por mais objetos

Na visita ao local onde a espada colonial foi encontrada, o especialista Carlos Fernando sugeriu que seja feito um trabalho de conscientização da comunidade, para que os moradores possam ajudar na busca por mais objetos históricos.

Ele disse que continuará fazendo estudos diários sobre o artefato e orientou que a espada seja colocada em um museu. “Todos os objetos achados nessa região têm que ser encaminhados para a parte histórica. Pode ser que a gente tenha tropeçado em algo muito sério, que é esta batalha. A Arqueologia é que vai determinar a história e este achado pode mudar, ou determinar, o ponto de uma batalha. Isso é importante para a região” – comentou Carlos Fernando.

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ENCONTRO DA ESPADA

A espada foi achada no Rio Cricaré no dia 17 de março, por Weverton Pirola Martins, conhecido como Beto. Ele relata que mergulhava na beira no rio quando sentiu o pé preso em um objeto no fundo. Então buscou tirar o objeto para saber do que se tratava. “Estava enterrada no fundo do rio e até demorei um certo tempo para tirar. Pensei que era uma peça de algum veículo, ou algo parecido” – relatou.

O historiador Eliezer Nardoto disse que pretende buscar apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual da Cultura (Secult), para que possam ser feitas mais pesquisas no local em busca de objetos antigos. -Foto: Ademilson Viana/TC Digital

Eliezer diz que buscará apoio no Governo do Estado para pesquisar área onde artefato foi encontrado

O historiador Eliezer Nardoto disse que pretende buscar apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual da Cultura (Secult), para que possam ser feitas mais pesquisas no local em busca de objetos antigos. “O objetivo é continuar a pesquisa da história do combate”, afirmou. Ele salientou ainda que a espada encontrada no Rio Cricaré, diante do Bar do Zeca, nas Meleiras, está guardada em local seguro, porém ainda não foi definido qual o destino artefato.

“Com a vinda do especialista, queremos chamar a atenção do Governo do Estado para financiar uma pesquisa no Rio Cricaré. Se forem achadas mais evidências históricas, o objetivo é fazer no local um monumento da Batalha do Cricaré” – enfatizou. Eliezer disse ainda que já tem material, como granito, para construir esse monumento.

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Outro objetivo de Eliezer é fazer reuniões com a comunidade, apresentar a espada para conscientizar os moradores. Ele acredita que outros objetos de importância histórica já devem ter sido encontrados, porém podem estar guardados, ou ocultados, pelos próprios moradores.

Além da espada, pescadores da região já encontraram outros objetos no Rio Cricaré, no local onde pode ter ocorrido a histórica Batalha do Cricaré, conforme relato do pescador Edenilton Villanova, o Dedé. -Foto: Ademilson Viana/TC Digital

Pescadores relatam encontro de cerâmica, machado de guerra e até crucifixo antigo no rio

Além da espada, pescadores da região já encontraram outros objetos no Rio Cricaré, no local onde pode ter ocorrido a histórica Batalha do Cricaré, conforme relato do pescador Edenilton Villanova, o Dedé. De acordo com ele, há cerca de 10 anos encontrou um crucifixo pesando cerca de um quilo com detalhes que poderiam ser de ouro ou bronze. Religioso, lançou novamente o crucifixo ao rio, no local onde encontrou, e a cruz nunca mais foi vista novamente. “Era Quinta-Feira Santa”, relatou.

Dedé relata ainda que o objeto foi capturado com uma tarrafa e que outros pescadores contaram que já haviam encontrado pedaços de cerâmica e até uma machadinha de guerra no local. Weverton Pirola Martins, o Beto, afirma que soube que pescadores encontram objetos, mas não divulgam com medo de sofrer algum tipo de embargo na pesca.

O restaurador Carlos Fernando pondera que, pelo contrário, o local pode ter uma valorização muito grande se for determinado que ali ocorreu a Batalha do Cricaré. “Um potencial turístico histórico enorme”, confirma.

São Mateus–ES

1 COMENTÁRIO

  1. Que bacana!! Sou arqueólogo e toda vez que eu me deparo com uma história assim, me encho de alegria. São com esses achados e nessas comunidades que podemos deixar vivo o poder do conhecimento sobre o nosso passado e pensar, com aprofundamento, em como podemos preservar o pouquinho de informação que temos sobre as nossas raízes sócio culturais.

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