Por Marcio Dolzan – Estadão Conteúdo

Numa época em que a temperatura (extrema) é um assunto que vai muito além das conversas de elevador, um debate volta e meia aparece: até onde é possível confiar nos termômetros espalhados pelas vias urbanas? Isso porque não é raro nos depararmos com equipamentos que apresentam temperaturas distintas, seja entre relógios digitais separados por poucas quadras de distância, seja pela medição oficial, divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), por exemplo.

Para responder a essa questão, o Estadão conversou com o professor Fernando Lang da Silveira, do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele explicou como operam esses equipamentos, e isso já ajuda a responder por que há diferenças constantes entre a medição oficial da temperatura, e essas vistas nas ruas do País.

“As medidas de temperatura do ar são feitas por estações meteorológicas, como as do Inmet, que fornecem os dados oficiais divulgados pelas mídias. Essas medidas obedecem a uma série de critérios usados universalmente”, explica Lang. Ele ressalta que, para isso, não basta apenas ter bons termômetros devidamente calibrados.

“Como o objetivo é medir a temperatura do ar, os termômetros devem estar em um abrigo meteorológico”, diz o professor da UFRGS. Esses abrigos, em geral, são de cor branca, “para minimizar a absorção de energia térmica”.

Eles também são instalados a cerca de 1,5 metro de altura do solo e têm venezianas, o que permite a circulação natural do ar para o seu interior, onde ficam os equipamentos de medição. Tudo isso, como se pode observar, é bem diferente do que vemos nos termômetros de rua.

Como funcionam os termômetros instalados nos relógios digitais espalhados pelas vias urbanas?

Segundo o professor Lang da Silveira, os equipamentos contam com um sensor de temperatura. “Trata-se de um sensor do tipo termopar, no qual a medida da temperatura é consequente de um sinal elétrico oriundo do sensor”, explica.

Há uma margem de erro na temperatura apresentada pelos termômetros de rua?

Aqui o professor da UFRGS faz uma ressalva: os sensores são precisos, mas a temperatura que eles captam é a do próprio sensor. “Nas estações meteorológicas, os termômetros se encontram em um abrigo especial, que tem o objetivo de garantir que a temperatura registrada seja a mais próxima possível da temperatura do ar atmosférico”, lembra Lang.

“Vemos relógios digitais espalhados pelas cidades com cores e aparências diversas, com localizações que não raro os expõem à radiação solar direta, aquecendo o seu interior, em especial o local onde o sensor de temperatura se encontra. Há, de fato, erros importantes na medição da temperatura, pois a medida usualmente não fornece a temperatura do ar atmosférico.”

Os termômetros de rua captam a temperatura ‘real’ ou a sensação térmica?

“Eles captam uma temperatura ‘real’, mas que pelas razões postas anteriormente não é uma medida fidedigna da temperatura do ar atmosférico”, diz o professor de Física da UFRGS. “As estimativas de sensação térmica envolvem outros fatores além da temperatura, tais como umidade relativa e velocidade do vento.”

Por que, em alguns casos, vemos diferenças de vários graus entre termômetros de rua instalados a distâncias não muito grandes?

Essa é uma pergunta que muita gente se faz, em especial em vias muito movimentadas, que costumam ter diversos equipamentos instalados a poucas quadras de distância. E a razão é simples: a posição onde foi instalado o relógio.

“Dois relógios digitais próximos podem fornecer medidas de temperatura muito diferentes. É fácil imaginar que se um estiver na sombra e o outro sob radiação solar direta, – ou se um estiver em local mais ventilado do que o outro -, registrarão diferentes temperaturas”, pondera Lang.

Mas, afinal: podemos confiar na temperatura exibida nos relógios digitais das cidades?

Se a intenção é ter uma noção aproximada da temperatura que se está enfrentando, em especial nessa onda de calor, a resposta é sim. “Eles servem para se ter uma informação mais ou menos confiável da temperatura do ar atmosférico, (ainda que) frequentemente com muitos graus de diferença em relação ao valor efetivo da temperatura do ar”, diz o professor da UFRGS.

Foto do destaque: Fernando Frazão/Agência Brasil

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