A doutoranda da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Tamara Lopes Teixeira, está
pesquisando sobre os traumas nos estudos socioespaciais, utilizando como objeto a localidade de Regência, a partir do rompimento da barragem das barragens da Samarco em Mariana (MG).

Ela busca compreender como a comunidade se organiza ou ganha forma a partir da situação traumática, o sofrimento a partir do desastre. A tese será concluída em 2025, e o trabalho, orientado pela professora Márcia Rodrigues, terá um trecho publicado como artigo na Local Cultures – Global Spaces (Culturas Locais – Espaços Globais), uma parceria das universidades de Nova Iorque (EUA), Hong Kong (China) e Melbourne (Austrália).

O artigo, segunda ela, é a parte mais teórica do trabalho.

Tamara detalha que integrou uma conferência internacional que acontece durante todo o ano para apresentar detalhes do trabalho. Especificamente nos dias 5 e 7 de dezembro, ela participou de discussões em Nova Iorque, de forma online, já que não conseguiu estar presencialmente no evento. No dia 7, inclusive, ela mostrou um vídeo sobre o artigo que será publicado no primeiro semestre do próximo ano.

A doutoranda salienta que Regência é apontada como um caso particular de abordagem indiciária de trauma em termos socioespaciais, após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, cujos rejeitos contaminaram o Rio Doce e chegaram à foz em Linhares.

“Antes, o local se apresentava como pólo de pesca, turismo, surf e uma referência na protecção ecológica das tartarugas marinhas”, enfatiza.

 

Pesquisa iniciada em 2017

A doutoranda Tamara disse que a pesquisa iniciou em 2017 em iniciação científica, onde
ouviu mulheres em Regência. Ela tinha abandonado essa pesquisa em 2020, pensando em realizar trauma em cidade grande, mas, em sugestão da orientadora, retomou a pesquisa na abordagem sobre o trauma em um evento marcante como o rompimento da barragem.

Formada em Arquitetura e depois em Ciências Sociais, a doutoranda frisa que a pesquisa tenta dialogar com a ciência social, a arquitetura e a psicanálise, para entender como a localidade vai se transformando a partir de um evento traumático. Conforme disse, o objetivo de compreender como a comunidade se organiza, ocupa os espaços a partir do momento traumático.

“A pesquisa ainda está em processo, o artigo que presento em Nova Iorque é um trecho da minha pesquisa que se encerra no primeiro semestre de 2025. Eu peguei um trecho e fiz uma análise do quadro teórico” – sustenta.

Tamara reforça que o objetivo é compreender como as pessoas mediam a dor, o sofrimento. Ela reforça que não é amenizar a dor, “porque ela existe e segue, cujos impactos ainda é cedo para mensurar”.

MUDANÇAS

A doutoranda já percebeu que Regência mantém as festas tradicionais, as questões culturais, que mediam a dor. Uma mudança observada é que muitas pessoas que deixaram de pescar, passaram a criar galinhas no quintal.

Tamara ressalta que a pesquisa dela não é quantitativa. Conforme ressalta, após o desastre ambiental, ocorreu uma explosão de pesquisas de monitoramento da qualidade da água, da pesca, dos peixes, mas que pouco se produziu em relação às pessoas com o lugar.

Sendo assim, a pesquisa tem o esforço de entender o que as pessoas querem dizer a partir do desastre, o exemplo de como um evento traumático transforma a vida delas. “A minha pesquisa quer avançar sobre o trauma, em pensar como se processa no espaço”, frisa. “O objetivo é entender como as pessoas estão ocupando o local, como o trauma vai redesenhando Regência”.

Ela reforça que Regência era uma comunidade envolvida com as atividades na foz do rio, como a pesca, o surf, reprodução das tartarugas, relacionadas a água, ao turismo. “Uma vez que essa relação é rompida, como é que essas pessoas se organizam? E quando elas organizam, não é que elas amenizam a situação, a vida é que continua. Então, a gente precisa de formas de mediar a nossa dor” – reflete.

E uma das mediações observadas é o artesanato que ficou ainda mais forte no lugar, segundo a visão de Tamara. Ela salienta que não se pode exaltar como algo altamente positivo, em virtude de ser uma mediação de sofrimento com o desastre ambiental, que é considerado pelo Ministério Público Federal com o maior do mundo.

Foto do destaque: Divulgação

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