CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAAPRESS) – Um ano após o início da pandemia de Covid-19, mais de 220 mil mortes e o país quase batendo em 10 milhões de casos confirmados, a atuação do Ministério da Saúde, sob gestão de Eduardo Pazuello, é desaprovada por 78,5% por médicos entrevistados em pesquisa da AMB (Associação Médica Brasileira), divulgada nesta terça (2).

Foram ouvidos 3.882 médicos de todas as regiões do país por meio de questionário online.

Pesquisa anterior da APM (Associação Paulista de Medicina) mostra que, em abril do ano passado, ainda sob o comando de Luiz Henrique Mandetta e com o país contabilizando pouco mais de 2.000 mortos, a aprovação batia em 72%.

“Logo que o Mandetta saiu, a aprovação despencou e se mantém nos mesmos patamares até hoje, em torno de 16%. Essa divergência de diretrizes e protocolos, autoridades defendendo suposições, tratamentos sem evidência, isso provoca muita confusão, deixa os médicos perdidos”, diz o médico César Eduardo Fernandes, presidente da AMB.

Mais de um quarto dos médicos entrevistados ainda acredita que a cloroquina e a ivermectina são medicamentos eficazes para os sintomas iniciais da Covid. E 15% apostam na ivermectina, um vermífugo, como prevenção. Inúmeros estudos científicos já demonstraram que eles não funcionam para prevenir ou tratar a Covid-19.

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Um outro equívoco: 13,8% dos médicos considerarem o corticoide dexametasona como opção terapêutica também nos sintomas iniciais da doença. Outros 8,8% citaram os anticoagulantes (como a heparina) para esse fim. Ambos só são indicados em quadros mais graves da Covid, quando há comprometimento pulmonar igual ou superior a 50%, que exigem internação.

“Não há um alinhamento dos médicos. Isso tudo deveria estar em protocolo do Ministério da Saúde muito bem escrito como se fosse a bíblia”, diz Fernandes.

A maioria dos médicos entrevistados (64%) relata deficiências de pessoal, protocolos e equipamentos nos serviços de saúde onde atuam. “Nós começamos a pandemia com muita precariedade, em dado momento isso se atenuou um pouco, mas o enfrentamento ainda é insuficiente, não consegue suprir as demandas mínimas necessárias para um atendimento digno”, afirma o presidente da AMB.

Um terço dos entrevistados (32,5%) reclama de falta de profissionais (médicos, enfermeiros entre outros), 27,2% de ausência de diretrizes e protocolos de atendimento e 20,3%, falta de leitos regulares e/ou de UTI.

Já a escassez de máscaras, luvas, aventais, óculos, proteção facial, álcool em gel e/ou outros materiais básicos ainda é problema para 16,7% dos profissionais.

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Cerca de 16% se queixam da falta de testes de diagnóstico para confirmar a Covid-19 nos pacientes que buscam atendimento. Outros 13% dizem que só há testes disponíveis para doentes que manifestarem sintomas graves da doença.

Oito em cada dez entrevistados relatam que as UTIs estão mais lotadas e 17,7% apontam que isso já compromete a qualidade da assistência. Na região Norte, 21,3% têm essa percepção, e, no Amazonas, 54,5%.

Nesse momento da pandemia, seis em cada dez profissionais apontam estresse e ansiedade no ambiente de trabalho. Um quarto deles já foi infectado pelo coronavírus.

Para Fernandes, o estresse relatado pelos médicos não chega a surpreender. “Eles estão desacorçoados, como se diz lá no interior, sem energia, sem esperança. Trabalham muito, mas a situação da pandemia não muda.”

Um recente estudo da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), com 999 profissionais de UTI, mostrou que cerca de metade dos médicos e enfermeiros do Norte e do Nordeste relatam escassez de profissionais e, em razão disso, maior sobrecarga para quem está na linha de frente.

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“Faltam profissionais habilitados e não até não habilitados para serem treinados. Está muito difícil preencher escala de plantão em todos os níveis nas UTIs. As pessoas estão cuidando de muito mais pacientes do que o número usual [dez]. Estão sem força, com sinais de burnout”, explica Suzana Lobo, presidente da Amib.

Outros fatores para o esgotamento físico e mental, segundo ela, são o medo de levar a infecção para os familiares e cuidar de colegas com a doença.

Um outro dado que chama a atenção é o alto percentual de médicos (72,8%) que relatam ter constatado na sua prática diária casos de pacientes que ficaram com sequelas após a cura da Covid.

A maioria (56,5) menciona sintomas considerados “mais brandos” como dor de cabeça, fadiga e dor no corpo. Mas 13% citam fibrose pulmonar, 11%, trombose e 6%, problemas cardíacos. “Estamos trocando pneu com o carro em andamento. Muitos desses casos o sistema de saúde sequer sabe [sobre a existência deles].”

Uma boa sinalização da pesquisa é que que quase a totalidade (97,5) dos médicos entrevistados pretende se vacinar contra a Covid-19 e recomendará a imunização aos pacientes.

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