Por
Tatiana Milanez
Repórter
Criadas em 2023, a Banda Marcial Bernardo Cantador e a Banda de Congo Mirim, da Escola Municipal Valério Coser, em São Mateus, são voltadas para as aulas de musicalização e, além de apresentações em conjunto, transportam a música para as demais disciplinas, transformando o ensino e a aprendizagem. Segundo a diretora da unidade, Adeliane Silva Souza Camargo, a instituição precisa trabalhar as relações étnico-raciais e, com o estudo da cultura afro-brasileira, nasceu a ideia de inserir o congo nas aulas.
“Os alunos compõem as músicas com o professor, tocam, cantam e trazem a música para dentro do conteúdo de outras disciplinas. O objetivo é despertar o gosto por todos os conteúdos. Temos o Congo da Matemática, o Congo da Língua Portuguesa, além da abordagem socioemocional com o Congo da Paz, criado em 2023, quando estavam ocorrendo muitos ataques em escolas. E as músicas de congo vão surgindo dependendo do assunto que observamos que é preciso trabalhar” – detalha a diretora em entrevista à Rede TC de Comunicações.
Na opinião de Adeliane, os alunos do 1º ao 5º ano da Escola Valério Coser gostam muito do formato de ensino-aprendizagem por meio da musicalização. Ela salienta que a região do Bairro Pedra D’Água, onde a escola está inserida, é rica culturalmente. “Existe uma proximidade com a cultura, através do Reis de Bois, as origens da região. Eles gostam muito” – garante, acrescentando que alguns alunos ensaiam nas duas bandas da escola.
De acordo com a diretora, desde a fundação, a Banda Marcial Bernardo Cantador é conduzida pela maestrina Robélia Coelho, enquanto a Banda de Congo Mirim Valério Coser é coordenada pelo professor da disciplina de musicalização, Alex Sandro Batista Scarpatti.
Até galões de água eram
usados como instrumentos
no início, afirma diretora
Adeliane Silva Souza Camargo recorda que em 2023, quando as bandas da Escola Valério Coser foram criadas, a Secretaria Municipal de Educação implementou o projeto Banda nas Escolas. Por ser uma instituição de ensino de tempo integral com disciplina de musicalização, decidiram começar com as bandas na unidade localizada no Bairro Pedra D´Água.
“O projeto Banda nas Escolas despertou o nosso interesse, mas não tínhamos instrumentos. Iniciamos com instrumentos feitos com material reciclável, como galões de água, e depois, junto à Secretaria [Municipal de Educação], que remanejou instrumentos sem uso de outras escolas para nós, conseguimos instrumentos mais adequados e montamos a banda” – frisa.

Ainda de acordo com a diretora, no primeiro ano de formação, a Banda Marcial Bernardo Cantador participou do tradicional Desfile Cívico no dia 7 de setembro com 28 integrantes. No ano seguinte, em 2024, foram 35 alunos e, neste ano, o total de crianças participantes chegou a 60.
“Os alunos estão cada vez mais interessados em aprender a tocar algum instrumento e os pais, vendo o bom desempenho, também incentivam as crianças. Alguns pais compraram escaletas, instrumento de sopro, dentre outras coisas, para a banda” – pontua.
RECREIO DE POSSIBILIDADES
De acordo com Adeliane, os ensaios da Banda Marcial Bernardo Cantador são realizados após o horário de almoço, no chamado Recreio de Possibilidades, conhecido como RP, onde, conforme a diretora, cada aluno escolhe a oficina que tem mais aptidão para participar ao longo do ano. Já a Banda de Congo Mirim, além do ensaio durante o RP, intensifica os treinos durante as aulas de musicalização.
Quem foi Bernardo Cantador?
Segundo a diretora da Escola Valério Coser, Adeliane Silva Souza Camargo, Bernardo Cantador é uma figura importante, que faz parte da história do Bairro Pedra D’Água e naturalmente do município. “Ele foi uma figura importante na história de São Mateus, pela questão da resistência através da preservação da cultura do Reis de Boi. Ele era um cantador de Reis de Bois que faleceu com aproximadamente 117 anos, segundo a história. Bernardo Cantador tinha facilidade de compor versos. Uma figura marcante na resistência da cultura negra pelo Reis de Boi e morador da nossa comunidade” – sustenta.
Adeliane revela que a escolha do nome da Banda Marcial e a criação da Banda de Congo Mirim estão totalmente atreladas à história de Bernardo Cantador e da cultura local. De acordo com a diretora, bisnetos de Bernardo Cantador estudam na Escola Valério Coser. Ela afirma ainda que os alunos, após o resgate histórico de algumas personalidades da região, decidiram homenagear o mateense dando o seu nome à banda.
Trabalho musical
da Escola concorre
na etapa nacional
de prêmio do MPT
O prêmio MPT na Escola é uma iniciativa do Ministério Público do Trabalho que reconhece os melhores trabalhos literários, artísticos e culturais produzidos por alunos de instituições públicas de ensino. No início deste mês, os alunos do 4º e 5º anos do Ensino Fundamental da Escola Valério Coser venceram a etapa estadual na categoria Música –conforme noticiado pela Rede TC de Comunicações–, o que permite que concorram na etapa nacional, cujos vencedores serão anunciados ainda em outubro.

Segundo a diretora da Escola Valério Coser, Adeliane Silva Souza Camargo, a canção vitoriosa é o trabalho Congo: Estudar sim, trabalhar não. Os integrantes são os alunos Lavínia da Silva Jesus, Maya Alexandre Gusson, Bernard Nunes Custódio Pereira, Yasmin Batista e Débora da Silva Ferreira.
“Em 2023 também vencemos na etapa estadual na categoria Música e alcançamos o segundo lugar na mesma categoria em 2024” – salienta Adeliane. Ela explica que os alunos que compõem a música e o professor de musicalização introduz a melodia.
“As bandas ativas na escola são fundamentais. Evidenciar a cultura, manter a história da comunidade viva pelas futuras gerações, perpetuar esse conhecimento e valorizar também o conhecimento dos antepassados. Hoje trabalhamos numa linha de formação integral e a cultura em si é muito importante nessa formação. E quando a gente pode aliar isso com a cultura do nosso bairro, a Educação só tem a ganhar” – complementa.

Foto: Wellington Prado/TC Digital






