terça-feira, abril 14, 2026
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Peixes e crustáceos aparecem mortos após cheia no Cricaré

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Por

Wellington Prado

Repórter

Após cheia no Rio Cricaré, moradores e pescadores perceberam o aparecimento de peixes e crustáceos mortos ou debilitados nas margens e manguezais. O Tecenauta Osmacio Torres encaminhou imagens para a Reportagem na manhã de ontem gravadas por um pescador mostrando a situação nas comunidades de Barreiras e Meleiras, em Conceição da Barra.

Procurado pela Rede TC, o coordenador da Defesa Civil do município, Jalmas Greis, destaca que o órgão recebeu informações sobre a situação ainda na segunda-feira (9) e consultou o engenheiro de Pesca, Arthur da Costa Lima, que apontou para um fenômeno natural, em decorrência da enchente, como causa das mortes.

“Ele falou que está acontecendo um fenômeno natural nessas ocasiões de cheias de rios, principalmente quando tem grande volume de água.  Essa água acaba retirando da margem aqueles resíduos que consomem o oxigênio do rio. Os animais ficam sem respiração e esse é o principal motivo” – sustenta.

Jalmas Greis disse que não é recomendado o consumo desses peixes e crustáceos mortos.
Foto: Divulgação

Diante da situação, Jalmas Greis afirma que o consumo desses animais não é recomendado, “já que nessas condições já estarão em processo de deterioração”. Além disso, acrescenta que podem ser encontrados animais mortos que não sejam por conta da cheia, mas por outros motivos.

 

Engenheiro de Pesca explica fenômeno

 

Também procurado pela Reportagem, o engenheiro de Pesca Arthur da Costa Lima explica que a causa das mortes pode ser devido a dois fatores. “Quando tem esse excesso de chuva na cabeceira, que desce um volume muito grande de água, ele vem lavando tudo. Então, a gente tem muita área de brejo no entorno. E brejo é área de decomposição de matéria orgânica, por isso fica aquela lama. E toda matéria orgânica quando decompõe, ela consome oxigênio. Então o oxigênio presente na água, que estaria disponível para os peixes respirarem, a matéria orgânica, as bactérias, os micro-organismos consomem esse oxigênio no processo de decomposição” – sustenta.

Arthur acrescenta que quando tem o arrasto nesse material devido ao excesso de água, deixa todo o ambiente aquático com oxigênio zerado. “Ele vem baixando o oxigênio total do rio. Aí os peixes começam o processo de tentar respirar. Isso a própria comunidade visualizou com os peixes ficando em cima da água, meio que batendo a boca em cima da água, tentando respirar”.

Ele explica ainda que os peixes fazem isso porque a lâmina d’água, em contato com a atmosfera, ganha oxigênio. “É uma fina camada de água que tem oxigênio por conta da atmosfera. Então o peixe sobe tentando alcançar esse oxigênio para poder respirar alguma coisa. Não consegue suprir a necessidade e, automaticamente, acaba vindo a morrer”.

 

Outro fator relacionado à cheia

 

Arthur aponta ainda que outro fator relacionado à cheia do Rio Cricaré pode ter levado à morte dos peixes e crustáceos. “O peixe tem o que a gente chama de guelras ou brânquias. Ela é para fazer a troca de oxigênio, como se fosse o nariz dele. Quando ele abre a boca para a água entrar junto com o oxigênio, passa pela guelra e ele faz a respiração mantendo o corpo oxigenado”.

Ele explica também que, em situação de chuva, a água dos mananciais fica barrenta. “Então, quando o peixe abre a boca para poder a água entrar e fazer a troca de oxigênio, todo o material em suspensão, esse barro, a argila, acaba entupindo as brânquias, o que dificulta o animal respirar. Então ele acaba sufocando, primeiro por não conseguir respirar pelo entupimento das brânquias, segundo porque a água já está com nível de oxigênio reduzido” – explica.

 

Professor mostra preocupação com falta de saneamento básico

 

Professor de Química do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), com mestrado e doutorado em Geociências, Aloísio Cotta também foi procurado pela Reportagem. Além de apontar para a possibilidade de falta de oxigênio na água por questões naturais, ele levanta preocupação com a escassez de saneamento básico nos municípios localizados ao longo da Bacia do Rio Cricaré, no Espírito Santo e em Minas Gerais.

Aloísio Cotta é professor de Química no Ceunes com mestrado e doutorado em Geociências.
Foto: Divulgação

“Geralmente está associado ao acúmulo de sedimentos ricos em nutrientes e, posteriormente, à floração de algas que, ao morrerem, são decompostas, causando o consumo de todo o oxigênio dissolvido na água. O fenômeno se agrava em períodos de maré morta, ou seja, dias com maré baixa, o que diminui a movimentação da água e prejudica a oxigenação. Mas a causa primordial decorre do lançamento de esgoto pelas cidades na bacia do Rio São Mateus [Cricaré]. Ou seja, sem saneamento básico, o problema continuará a se repetir” – sustenta.

 

Foto do destaque: Divulgação

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