Profetas de desventuras sempre existiram, nunca faltaram, pregando: “O fim do mundo está próximo!”. Já no final do Ano Litúrgico, a Igreja também aborda este tema para ajudar-nos a refletir, à luz da fé, sobre ele. Antes de tudo, nos exorta a não ter medo das dificuldades, incompreensões e até das persecuções que somos chamados a enfrentar nesta etapa final do nosso itinerário terreno e da História humana, mas a ter confiança, perseverando no seguimento de Jesus, Senhor da História. “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos alarmeis; é preciso que isso aconteça, primeiro, mas não será logo o fim”.
A restauração do reinado de Davi era o sonho do povo de Israel, pois marcava início de uma nova época de paz e felicidade: prefiguração da vinda do Messias, que, enviado por Deus, iria restaurar o Reinado de Deus sobre a Terra. Três são as etapas: o Seu nascimento, em Belém da Judeia. “O Verbo se fez carne e veio habitar no meio de nós”. No Natal do Senhor, celebramos a Sua primeira vinda. A segunda: no dia de Sua ressurreição – como atestam, concordes, os relatos evangélicos. A terceira, definitiva: no “Dia de Javé” ou “Dia do Filho do Homem”, isto é, “no final dos tempos”, quando, segundo o Credo apostólico: “Ele virá para julgar os vivos e os mortos e o Seu reinado não terá fim”.
Adverte Paulo: “A vinda do Senhor está próxima”. Não é “o fim do mundo”, mas “o fim de um mundo”: termina, de fato, uma etapa da história salvífica e inicia uma nova e eterna. Como, no parto de uma mulher, as dolhas precedem o nascimento de uma nova criatura. Assim, o mundo em que habitamos, marcado pelo mal e a morte, termina –diz Jesus–, para dar início a um novo, em que a morte é vencida, pois “Deus estará tudo em todos”. “É permanecendo firmes que ganhareis a vida”: Deus, Senhor da História, salvará quem lhe for fiel.
São Lucas, no Evangelho de hoje, traz a última pregação de Jesus, em Jerusalém: nada é definitivo –Ele afirma–, tudo é precário, menos a realidade do Reinado absoluto de Deus sobre a humanidade e o universo inteiro. Jesus inaugura os tempos do novo povo de Deus, a Igreja, aberta a toda a humanidade, pois “Ele quer que todos se salvem”, façam parte de Sua família e sejam herdeiros de Seu Reinado. Em meio às crises e perseguições, os cristãos são chamados a resistir e perseverar. A plenitude, prometida por Jesus e desejada pela humanidade, não é totalmente pronta, nem é o resultado de uma intervenção mágica de Deus.
Ela é dom, mas, também, conquista, que exige o nosso esforço pessoal. Deus conta conosco para construir, neste mundo, Seu Reinado de justiça, liberdade, verdade e fraternidade. Apesar de todas as condições adversas da História, o Evangelho nos assegura: só em Jesus Cristo, encontraremos aquela felicidade plena e eterna, a que aspira, desde sempre, o nosso coração, pois só Ele a pode dar, por ser Deus.
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(*Padre Ernesto Ascione é missionário comboniano.)







