MARCELO LEITE
ABROLHOS, BA (FOLHAPRESS) – O óleo que emporcalha praias do Nordeste, do Ceará à Bahia, é só uma amostra do pesadelo que assombra centenas de milhares de baianos que vivem da pesca, caso não se altere o leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) na quinta-feira (10). Além de baleias, corais-cérebro, atobás, caranguejos…

Com ajuda do Ministério Público Federal, pescadores lutam para excluir da oferta de 36 blocos quatro áreas que trazem perigo para o arquipélago de Abrolhos e dois extensos manguezais. O quarteto na bacia de Camumu-Almada arrecadaria meros R$ 10,8 milhões (0,34%) do total de R$ 3,2 bilhões esperados em bônus de assinatura.

Os blocos só permaneceram na 16ª rodada da ANP por intervenção direta do novo presidente do Ibama, Eduardo Bim. No início do governo Bolsonaro, em 1º de abril, Bim atropelou parecer contrário de técnicos subordinados e determinou que as áreas seguissem na oferta pública.

A juíza Milena Souza de Almeida Pires, da Justiça Federal da Bahia, decidiu nesta quarta-feira (9) manter o leilão para os blocos das bacias Camumu-Almada e Jacuípe que levam risco a Abrolhos. Ela não acatou o pedido de suspensão da oferta feito pelo Ministério Público Federal da Bahia, mas determinou que as empresas interessadas sejam notificadas de que o caso segue sub judice.

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Segundo Carlinhos, da Amex, nenhuma simulação das realizadas entre 2006 e 2009 foi capaz de demonstrar a capacidade das companhias petrolíferas de impedir que o óleo entrasse pelas barras e canais e se espalhasse pelo mangue.

“A luta contra o petróleo é só mais uma”, afirma o integrante da Amex. Há décadas os pescadores enfrentam a especulação imobiliária trazida pelo turismo no sul da Bahia e a carcinicultura, criação intensiva de camarões em lagoas, cujos excrementos poluem as águas do mangue.

“Se derramar esse troço aí, esta comunidade vai pro pau. Não queremos viver de cesta básica, a gente quer viver do que Deus nos deu”, reforça João Gonçalves, que atualmente preside a Amex.

“Enricar é ilusão. Estão apertando os pequenos de nascente a poente”, diz o pescador ao descrever a política ambiental do governo Bolsonaro.

Para Carlinhos, o petróleo traz desarticulação social mesmo quando não há derramamento. Cita o exemplo de Cairu, município ao norte que recebe milhões em royalties e ICMS com a exploração de gás natural no campo marítimo de Manati, sem grande benefício para a população.

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“Onde há petróleo a gente vê miséria absoluta, associada com prostituição e tráfico de drogas”, diz o representante da Amex.

“A miséria da gente [em Canavieiras] não é de produto, é de políticas públicas. A gente não tem saneamento básico. O Estado obriga nossos filhos a comer achocolatado e almôndegas em lata [na merenda escolar].”

No quintal de dona Marlene na comunidade de Campinhos, o almoço está servido: arroz, feijão, farofa, moqueca de robalo, catado de aratu. Iguarias baianas que ficarão ameaçadas se os quatro blocos de Camumu-Almada continuarem no leilão desta quinta-feira (10).

Basta um deslize na operação dos poços, a 70 km da costa e a 2.500 m de profundidade. Isso se encontrarem petróleo por lá, e se o Ibama de fato conceder a licença final de operação. Os moradores da Resex esperam que empresas exploradoras concluam haver risco demasiado e passem ao largo da licitação.

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