LUCIANA COELHO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Única produção dos Estados Unidos entre os cinco indicados ao Oscar de melhor documentário, “Indústria Americana” levou o troféu na noite de domingo (9). Reflexo do conhecido desinteresse americano pelo que vem de fora? Apelo da primeira obra assinada pela produtora de Barack e Michelle Obama?

Imagem: Netflix/Divulgação

Talvez haja um pouco de ambos, mas é fato que o filme de Steven Bognar e Julia Reichert toca muito mais gente do que americanos preocupados com a economia de seu país –possivelmente, mais gente, também, do que seus concorrentes vindos de Brasil, Macedônia e Síria. Não se deixe levar pelo título, prejudicado na tradução.
Enquanto em português ficamos com um opulento “Indústria Americana”, que transborda para toda a economia de uma potência mundial, o original é singelo: “American Factory”, fábrica americana.
Uma fábrica sem lugar demarcado, porque sua história se repete em tantos outros, no Brasil inclusive. O fato de os donos da fábrica americana serem agora chineses traduz muito bem um paradoxo corrente.
O filme levou anos para ser feito, a partir de um curta da mesma diretora, que concorrera ao Oscar em 2010, “The Last Truck: Closing of a GM Plant” (o último caminhão, o fechamento de uma fábrica da GM). Esse último abordava o ocaso das linhas de produção automotivas nos EUA como se conhecia até então diante da automatização e da chegada das montadoras asiáticas.
Passaram dez anos e o tema de fundo, as mudanças nas cadeias de produção e seus efeitos no mercado de trabalho e na sociedade, só cresceu.
Não é exagero dizer que muito do que está no documentário ajuda a explicar o sentimento de desconsolo que alimentou o populismo político nos EUA e além.

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Foto: Netflix/Divulgação

A chegada dos chineses que acabam de adquirir a antiga fábrica da GM e a reação dos operários, dúbia em relação a esse neoimperialismo desconhecido que ao mesmo tempo ressuscita empregos e reduz condições e compensações pelo trabalho, espelha uma transformação em curso no mundo inteiro cujo estágio final não está claro.
Ao levar essa discussão ao chão da fábrica, eles conseguem dar rostos humanos a um tema tratado com números e dados, criando uma empatia imediata com o espectador (algo, aliás, que “Democracia da Vertigem” busca mas falha miseravelmente).
E, ok, a fábrica que aparece no filme está em Ohio, mas esta repórter visitou instalações na mesmíssima situação em 2012 no Mississippi, no empobrecido sul dos EUA. Os operários reclamavam das mesmas coisas, e sentiam gratidão por ter emprego em meio a uma economia tão combalida.
Explorando essa ambiguidade humana, expondo dúvidas em vez de panfletos e sermões, “Indústria Americana” consegue se conectar ao espectador primeiro em um nível menos racional e mais emotivo, e, depois, levá-lo a refletir sobre a amplitude dessas mudanças. É feito raro.
Finalmente, há de se sublinhar que, assim como “Parasita”, o documentário se encaixa bem no momento de fascínio americano com a Ásia, tornada prioridade na política externa de Obama e obsessão na de Donald Trump, em detrimento de uma Europa que perde, de uma América Latina que ainda não cumpriu as expectativas a seu respeito e de uma África esquecida.

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Indústria Americana
Disponível na Netflix

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