BRUNO RODRIGUES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quem convive de forma mais próxima com Pep Guardiola ouve frequentemente explicações sobre conceitos de jogo que começam assim: “Como nos dizia Juanma…”.

Juanma é Juan Manuel Lillo, treinador espanhol de 54 anos que chegou ao Manchester City na semana passada para ser o novo assistente técnico de Guardiola.

Sem que houvesse uma janela de transferências durante a paralisação causada pela pandemia, a contratação do auxiliar foi a única mudança relevante que o clube inglês pôde anunciar para a volta da Premier League, retomada a partir desta quarta-feira (17).

O City enfrenta em casa o Arsenal, às 16h15 (de Brasília), com transmissão da ESPN Brasil. Com 25 pontos de desvantagem para o líder Liverpool e dez jogos restantes, a conclusão do torneio nacional deverá ser uma formalidade no topo da tabela.

A equipe, porém, segue viva nas oitavas de final da Champions League, que ainda não teve uma definição sobre seu retorno.

Nesse cenário, a chegada de Juanma Lillo a Manchester marca um reencontro ao mesmo tempo em que é uma novidade, já que ambos trabalharam juntos em determinado momento, mas nunca em uma mesma comissão técnica.

Quando estava no fim de sua carreira como jogador, em 2005, Guardiola foi defender o Dorados de Sinaloa, do México. Além da vantajosa proposta financeira, ele tinha o plano de se tornar treinador e queria absorver conhecimentos do então técnico da equipe mexicana.

Era Juanma, que em quase 30 anos de carreira nunca ganhou um título.

Ainda assim, o espanhol forma, ao lado de Johan Cruyff, os dois pilares futebolísticos de Guardiola. Do holandês, seu técnico no Barcelona, ele extraiu como jogar bem e vencer a partir do protagonismo com a bola. Mas foi Juanma Lillo, considerado o principal teórico do jogo de posição, o grande responsável por transmitir ao catalão esse conceito de maneira didática.

Em linhas gerais, o jogo de posição se baseia no respeito às posições de cada jogador. Eles são responsáveis por criar, desde a saída na defesa, linhas de passe e superioridade numérica no setor onde está a bola, sem desocupar suas zonas de atuação.

Apenas no último terço do campo, já na fase de definir as jogadas, é que os atletas têm mais liberdade de movimentação e intuição.

É um conceito que busca diminuir certo “anarquismo” do jogo e dá aos atletas ferramentas que, com o tempo e a repetição, vão sendo automatizadas. Para Guardiola, é a melhor forma de tirar a imprevisibilidade de uma partida e tentar acomodá-la, com seu estilo, ao objetivo de sempre: vencer.

No início de sua trajetória como técnico, quando assumiu o Barcelona em 2008, ele era um fundamentalista do jogo de posição. Prova disso ocorreu em uma partida da fase de grupos da Champions League. O francês Thierry Henry, que era ponta esquerda na equipe, decidiu trocar de lado e foi para a direita.

“Eu fui tentar dar uma de esperto. Eu não tocava na bola havia alguns minutos, estavam se divertindo lá do outro lado e queria fazer parte disso também. Fui tabelar com Leo [Messi] e marquei um gol, 1 a 0 contra o Sporting. No intervalo, fui substituído. Quando Pep tem um plano, respeite o plano”, disse Henry a uma TV inglesa anos atrás.

Em sua passagem pelo Bayern de Munique, Guardiola agregou características do futebol alemão ao seu plano de jogo, com um ataque mais direto e uma linha defensiva bastante adiantada, ocupando o campo do rival com jogadores que pudessem roubar a bola o mais distante possível do goleiro Manuel Neuer.

Na Baviera, o catalão chegou, inclusive, a jogar com cinco atacantes, em um 2-3-5, uma formação que remete ao primitivo WM, esquema que revolucionou o futebol na década de 1930.

Logo ele, que anteriormente dizia que só se deveria jogar com meio-campistas. Influência de Juanma Lillo, que sugeriu “inverter a pirâmide”, num processo contrário à própria história de evolução do jogo.

Contratado pelo Manchester City em 2016, Guardiola chegou à Inglaterra e se deparou com um futebol ainda mais direto que o alemão, repleto de lançamentos e jogo aéreo.

Como ele próprio disse em sua primeira temporada, na qual não conquistou títulos, “a bola passa mais tempo no ar do que no chão”, ou seja, deixa o jogo mais imprevisível.

Guardiola e o City, depois que os atletas passaram a entender melhor o jogo de posição, conseguiram domar essa imprevisibilidade nas duas temporadas seguintes, conquistando o bicampeonato da Premier League com sobras.

Agora, além da irregularidade da equipe nesta temporada, há de se tentar controlar um outro fator: o Liverpool de Jürgen Klopp, de campanha arrasadora.

“Juanma Lillo o ajudará nessa obsessão de tentar controlar tudo. Esse Liverpool tem um time que está feito sob medida para enfrentar as equipes de Pep, tem um contra-ataque perfeito”, afirma o jornalista Pol Ballus, que cobriu in loco as quatro temporadas do técnico na Inglaterra até aqui e é autor de um livro sobre o trabalho de Guardiola no país.

“Guardiola também irá teorizar, se aprofundar ainda mais no estudo das equipes. Com Lillo, ele seguirá estudando tudo ao máximo, porque tem a sensação de que, se trabalha uma hora a mais que seu rival, já começa ganhando o jogo por 1 a 0. Vejo um Pep mais convencido que nunca de que pode fazer as coisas de sua maneira”, afirma Ballus.

Somada a essa obsessão por tentar prever todos os cenários, há também uma questão mais prática na chegada de Lillo ao clube. Desde dezembro, com a saída de Mikel Arteta para comandar o Arsenal (seu adversário nesta terça), Guardiola estava sem assistente técnico.

Em 2018, antes de Arteta tornar-se seu auxiliar direto, o catalão já havia perdido Domènec Torrent, que foi treinar o New York City e findou uma parceria de trabalho que já durava 11 anos.

Com Juanma Lillo, o comandante não terá somente sua fonte de inspiração ao lado. Também poderá dividir tarefas que sua comissão acabou acumulando principalmente nesta temporada. “Mais do que falando, Juanma é bom sobretudo treinando”, diz Guardiola.

Em vez de mudar drasticamente diante da derrota, ele volta à fonte original do seu conhecimento para tentar aperfeiçoar a ideia de como se deve jogar futebol. E vencer.

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