MANUELA TECCHIO
SUMARÉ, SP (FOLHAPRESS) – Quando o centésimo rolo de filme vai para a câmera durante uma gravação cinematográfica, segundo manda a tradição, deve-se estourar uma garrafa de espumante para garantir a sorte. “O Segundo Homem”, novo longa de Thiago Luciano foi gravado em cartões digitais, mas mesmo assim o de número cem foi comemorado. “Viva a arte, a cultura e o cinema brasileiro”, diz o diretor e roteirista no momento do brinde.
Há pouco mais de um mês, a equipe finalizou as gravações, que foram rodadas em Sumaré, próximo a Campinas, no interior de São Paulo. Num dia escaldante de sol no horto da cidade, interrompido por umas poucas gotas de chuva, Lucy Ramos, Anderson di Rizzi, Cleo e Negra Li, completamente suados, apontam-se armas no tenso desfecho da trama.

Gravações de “O Segundo Homem”. Foto: Reprodução

Uma tropa de airsoft, com mais de 30 homens vestindo jaquetas e calças camufladas, capacetes e armas, se aglomerava debaixo das tendas, aguardando o momento de fazer uma ponta como figurantes. O clima de ansiedade, calor e aflição contribui nas cenas gravadas ali, diante de um lago brilhante, mas estático.
Com estreia prevista para este ano, o filme se passa em um Brasil um tanto distópico, onde o porte de armas é liberado. Na trama, o público acompanha a trajetória de Miro, um trabalhador que leva uma vida simples até que uma série de acontecimentos violentos abalam sua mulher, Solange. Ele então decide se alistar na Legião Estrangeira, sediada na França, para proteger sua família.
No papel da professora Solange, que depois de episódios traumáticos passa a ter síndrome do pânico, Lucy Ramos afirma que sua pesqui

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Foto: Reprodução

sa foi baseada em mulheres próximas, com quem conviveu. “Sempre falo que ela [a personagem] é bem essa mulher brasileira. Trabalha, tem família, cuida da filha, o marido está desempregado e ela segura a barra. Tem esse olhar sofrido mas ao mesmo tempo forte, de quem levanta a poeira e dá a volta por cima.”
Para a atriz, a forma de vida simples e sem vaidades também está presente em seu cotidiano, algo que tornou mais fácil a missão de interpretá-la. “Eu faço tudo em casa. Eu não tenho empregada, apenas uma ajudante a cada 15 dias. Na minha vida particular, no meio do mato, com os meus cachorros, eu sou a Solange, fácil.”
Na pele do protagonista, Anderson di Rizzi não economizou dedicação. Por causa das gravações espaçadas, que começaram no início do ano, em Paris, na França, o ator precisou manter por vários meses a mesma dieta rígida e suplementada para viver o forte Miro, enquanto também interpretava o executivo Márcio na novela “A Dona do Pedaço” (Globo).
Perdeu cerca de sete quilos. Também fez aulas de tiro, razão pela qual chegou ao set com dores nas costas e na mão. Mas nada disso o fez perder a empolgação. Conhecido por personagens mais doces ou cômicos -pelo menos na televisão- Di Rizzi diz acreditar que a oportunidade possa ter grande impacto sobre sua trajetória artística.
“É um papel que existe muito de mim psicologicamente e fisicamente. Eu acredito que esse personagem vai ser muito importante para a minha carreira. Pode mudar a forma como as pessoas vão me enxergar daqui para frente”, afirma.
O aspecto cuidadoso e afetivo dos papéis com os quais está habituado não sumiu por completo. Na trama, Di Rizzi interpreta o dedicado pai de Rosa, vivida pela estreante Eduarda Esteves, chamada por todos ali de Duda. Sem nunca ter frequentado aulas de teatro, a menina de apenas sete anos se destacou nas audições com candidatos locais.
Enquanto espera para gravar, em seu roupão cor de rosa, igual ao de Lucy, Esteves observa os demais atores com atenção. Imita um exercício de aquecimento, decora o texto, tagarela com a maquiadora. Mas quando entra em cena assume um ar grave, ciente de que é hora de trabalhar. “Quanto mais eu vejo as pessoas fazendo, mais eu aprendo. Eu não perdia um capítulo da novela que a Lucy fazia”, conta.
Completam esse estrelado elenco Wolf Maya, no papel do general Assis, além de Negra Li e Cleo, dupla que dá vida a duas policiais parceiras. “Estou super familiarizada com a personagem, acho que eu nasci para isso, porque todo mundo me fala que eu tenho cara de brava e esse meu ‘jeitão’ do rap, então acho que eu pude trazer essa personalidade”, diz Li.
Responsável também pelo roteiro, ao lado de Herbert Bianchi, Thiago Luciano explica que, apesar da trama distópica, o paralelo com o real, que buscou aplicar nas características e histórias de vida dos personagens, também é traçado quanto ao cenário político e social do Brasil.
“A gente resolveu só colocar uma lente de aumento em tudo que já está acontecendo no Brasil. Comecei a ver nesse cenário caótico das milícias tomando conta do país. A gente só foi dando uma aumentadinha em cada coisa”, explica o diretor.
“E rola uma crítica social por trás disso. No nosso filme, todo mundo que colocou a mão numa arma, teve algum problema com ela. A gente não está defendendo [o porte de armas], a gente levanta esse assunto para falar contra o uso de armas”, completa.
Financiado por meio da Lei do Audiovisual, o longa captou recurso junto a empresas locais e foi produzido com baixo orçamento. Sobre as atuais discussões e ameaças de cortes destes meios de incentivo, o diretor diz estar feliz por conseguir rodar o filme num momento de crise, mas se preocupa com o futuro.
“A gente teve sorte nesse momento. A gente estava há anos tentando captar para esse filme e conseguiu com a ajuda da cidade de Sumaré. Eu acho que o ano que vem vai ser muito pior. Se a gente quiser olhar com mais otimismo, tem que entender que agora a gente precisa voltar a dar as mãos de novo”, conclui.

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