Por Tatiana Milanez – Repórter
Jaguaré – A história da família Cescon é, acima de tudo, uma história de coragem. É o retrato de homens e mulheres que deixaram para trás a segurança de suas origens para enfrentar o desconhecido, desbravar a mata fechada e construir, com as próprias mãos, uma nova vida. O esforço de Eugênio Cescon e Nilda Cógo Cescon não apenas garantiu o futuro de seus filhos, mas também ajudou a moldar a história de Jaguaré.

Esse legado de trabalho, fé e perseverança é reconhecido hoje na 14ª Semana Cultural Italiana, quando a família recebe homenagem que celebra a contribuição dos pioneiros para o desenvolvimento do município.
Filha do casal, Maria Luzia Cescon Basso, de 75 anos, lembra que os pais eram filhos de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil ainda crianças, com apenas seis ou sete anos de idade. A família vivia na comunidade de Monte Alverne, em Castelo, quando decidiu aceitar o desafio de recomeçar a vida no Norte do Espírito Santo.
Na época, o governo incentivava a ocupação da região. Movido pela esperança de oferecer um futuro melhor à família, Eugênio Cescon adquiriu, em 1949, uma propriedade de 20 alqueires no Córrego das Abóboras, em Jaguaré. O terreno era coberto por mata nativa e deveria ser quitado em três anos.
“Papai voltou para Castelo e, em agosto de 1951, trouxe a esposa e os seis filhos para iniciar uma nova vida”, conta Maria Luzia.
A viagem até o novo lar foi marcada por desafios que hoje parecem inimagináveis. Em Linhares, a família precisou atravessar o Rio Doce de balsa, já que ainda não existia ponte. Ao chegar à propriedade, encontrou apenas a floresta.
Sem casa, sem energia elétrica ou qualquer infraestrutura essencial nos dias atuais, os Cescon viveram cerca de um ano na residência do posseiro Alpheu Sossai.
“Eu tinha apenas um ano de idade. Não havia moradia nem qualquer infraestrutura quando chegamos”, relembra Maria Luzia.
Sonho construído em meio às dificuldades
Com a ajuda de outras famílias italianas que haviam chegado antes, entre elas os Brioschi e os Pariz, Eugênio abriu, com enxadões, o caminho que levava até sua propriedade.
Os primeiros anos foram extremamente difíceis. Sem conhecer as características do solo e do clima da região, as primeiras plantações fracassaram. A sobrevivência da família dependia da caça, da mandioca cultivada na propriedade e da solidariedade dos vizinhos.
Para garantir o sustento da casa, Eugênio também trabalhava para outros produtores, conseguindo recursos para comprar itens básicos, como sal e querosene.
“No início foi muito difícil. Papai não conhecia o clima, o plantio não deu certo e nossa alimentação dependia da caça, da mandioca e da ajuda dos vizinhos”, recorda Maria Luzia.
Trabalho que virou referência
Mesmo diante das adversidades, Eugênio jamais desistiu. Orientado por amigos, começou a investir na criação de gado em uma área próxima ao Rio Cricaré, onde a atividade apresentou melhores resultados. Aos poucos, o trabalho árduo deu lugar à estabilidade e abriu caminho para um novo ciclo de prosperidade.
Eugênio e Nilda criaram sete filhos: Delsizo, Geraldo, Alzira, José João, Angelim, Maria Luzia e Anacleto.
Com o passar dos anos, Eugênio tornou-se uma figura conhecida e querida pelos moradores de Jaguaré. Durante cerca de três décadas, percorreu a cidade vendendo leite, queijo, limões e laranjas no antigo ponto de ônibus, conquistando o carinho da população.
“Ele ficou conhecido como o homem do leite”, lembra a filha, com emoção.
Exemplo que permanece vivo
Eugênio faleceu aos 85 anos. Nilda viveu até os 98. Ambos deixaram como maior herança os valores que cultivaram ao longo da vida.

Embora nunca tenham aprendido a ler ou escrever, ensinaram aos filhos lições que atravessaram gerações.
“Apesar de serem analfabetos, eles educaram os filhos com princípios de fé, resistência, coragem e perseverança”, afirma Maria Luzia.
Hoje, os descendentes mantêm viva a vocação da família. Os que permaneceram em Jaguaré continuam ligados à agricultura, enquanto parte dos familiares que vive em Rondônia se dedica à pecuária.
Mais do que preservar a tradição no trabalho, os Cescon fazem questão de reunir filhos, netos e bisnetos durante a Semana Cultural Italiana, mantendo viva a memória daqueles que abriram caminhos para as gerações seguintes.
“Nossa família faz questão de envolver filhos, netos e sobrinhos na festa para honrar a memória dos nossos pais e manter viva a história da família”, destaca Maria Luzia.
A trajetória da família Cescon mostra que Jaguaré foi construída por pessoas que enfrentaram desafios gigantescos sem perder a esperança. Homens e mulheres que trocaram o conforto pelo sonho, venceram as adversidades com trabalho e deixaram um legado que continua presente na identidade e no desenvolvimento do município.





