IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Envolvidos com a aguda fase da crise entre a Rússia e a Ucrânia, que ameaça descambar para uma guerra no Leste Europeu, os Estados Unidos enfrentam uma segunda ameaça em uma frente que estava relativamente calma: o Indo-Pacífico.

Pequim a reagiu a manobras navais entre americanos e japoneses, que culminaram com o envio de dois grupos de porta-aviões dos EUA para o disputado mar do Sul da China, e promoveu a maior incursão aérea contra defesas de Taiwan desde outubro.

Os incidentes ocorreram no domingo (23), e nesta segunda houve uma nova leva de ações militares chinesas sobre a Adiz (área de identificação de defesa aérea, uma espécie de espaço aéreo informal que os países usam para monitorar ameaças) de Taiwan.

Foto: Força Aérea dos EUA pelo sargento Daryn Murphy/Fotos Públicas

No domingo, foram 39 aviões, 34 deles caças, 4 especializados em guerra eletrônica e 1 bombardeiro. Nesta manhã de segunda, foram 10 caças, 1 aeronave de guerra antissubmarino e 2 J-16D, um novo avião de ataque com defesas eletrônicas.

Os taiwaneses fizeram interceptações com seus caças, após duas semanas complicadas, já que a frota do novo avião de linha de frente do país, o F-16V americano, ficou fora de operação devido à queda ainda não explicada de um aparelho no começo do ano.

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Os EUA apoiam, politicamente e com venda de armas, o governo taiwanês, embora teoricamente aceitem o princípio de que só há uma China, aquela comandada por Pequim.

Pequim não fez comentários, mas o movimento sugere uma retomada de ações de grande porte. Em outubro, em apenas quatro dias, 148 aviões testaram as defesas da ilha autônoma que o regime comunista considera sua -no dia 4 daquele mês, foi estabelecido do recorde histórico de 56 aeronaves.

De lá para cá, o ritmo diminui, embora seja uma constante. Neste janeiro, 70 aparelhos haviam voado na Adiz taiwanesa. O movimento é uma reação tanto às manobras com os japoneses no mar das Filipinas, que acabaram domingo, quanto no deslocamento dos dois grupos de porta-aviões que participaram do exercício para o mar do Sul da China.

Principal leito de rotas marítimas vitais para economia chinesa, o mar é considerado por Pequim seu quintal -com a militarização de ilhotas e atóis, a ditadura clama 85% dele para si, o que é contestado por vizinhos e pelo Ocidente.

“Operações como essa nos permitem melhorar capacidades críveis de combate, tranquilizar nossos aliados e demonstrar nossa determinação como Marinha de garantir estabilidade regional e conter influências malignas”, disse o comandante do grupo de ataque liderado pelo USS Abraham Lincoln, J.T. Anderson.

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Esse tipo de confrontação por meio de exercícios militares tornou-se intenso desde que os EUA entraram na Guerra Fria 2.0 com os chineses, em 2017, mas atingiu um ápice nos dois últimos anos.

O governo de Joe Biden aumentou a frequência de manobras enfatizando o que chama de liberdade de navegação em áreas próximas a interesses chineses, e estabeleceu um pacto militar com a Austrália e o Reino Unido que pode aumentar sua capacidade de ameaçar rotas de Pequim.

Uma potência continental, a China depende de caminhos pelo mar que são fáceis de bloquear por passarem por estreitos controlados por países rivais.

A novidade da situação é que esse movimento ocorre agora em meio à piora da crise na Europa, com a Otan (aliança militar liderada por Washington) reforçando posições militares com o temor de uma invasão da Ucrânia pela Rússia.

O país de Vladimir Putin quer uma solução para a guerra civil congelada no leste do país, que envolve rebeldes pró-Rússia, e aproveitou para colocar na mesa um menu de demandas para conter a Otan na região. O impasse está dado.

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Ao longo da crise e também na ação russa para esmagar uma revolta no Cazaquistão, a China apoiou Putin e disse que ambos os países precisam estar prontos para agir de forma conjunta contra o Ocidente.

Embora nada indique que a ação em Taiwan seja algo combinado com os russos, é inescapável a ideia de que os EUA podem eventualmente ter de lidar com crises simultâneas em dois lados distantes do mundo, esgarçando suas capacidades de engajamento militar.

O assessor de Segurança Nacional de Biden, Jake Sullivan, chegou a ter de responder uma questão sobre essa possibilidade em entrevista coletiva recente, tergiversando sobre uma aliança Moscou-Pequim.

Seja como for, ambos os países, adversários históricos, estão bastante próximos militarmente em reação às pressões ocidentais. Recentemente, fizeram inclusive manobras navais provocativas contra os aliados EUA e Japão.

Nesta segunda, Pequim negou uma reportagem da agência americana Bloomberg segundo a qual Xi pediu a Putin para não agir na Ucrânia durante os Jogos Olímpicos de Inverno, que ocorrem na China de 4 a 20 de fevereiro.

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