
Por Tatiana Milanez – Repórter
Nesta quinta-feira, 23 de abril, é celebrado o Dia Mundial do Livro. Também é uma ocasião que convida leitores de todas as idades a refletirem sobre a importância da literatura como instrumento de conhecimento, imaginação e preservação da memória humana. Para as escritoras capixabas Bernadette Lyra e Mônica Porto, em um mundo cada vez mais acelerado e digital, os livros seguem como refúgio e também como ponte para compreender as experiências humanas.
A mateense Mônica Porto, de 53 anos, e a barrense Bernadette Lyra, de 87 anos, são reconhecidas por suas obras que passam por gêneros como ficção, romance, literatura infantojuvenil e poesia. As escritoras compartilham os pontos de vista sobre a data, suas obras e também opinam sobre a literatura na atualidade.
Para Bernadette Lyra, o Dia Mundial do Livro cumpre um papel essencial ao manter viva a valorização da leitura em meio às constantes transformações do mundo atual. “Os dias comemorativos são sempre um lembrete bem-vindo nas ondas cada vez mais turbulentas de acontecimentos com que o mundo atual envolve as pessoas. A data serve para lembrar e homenagear não apenas o nascimento ou morte de escritores famosos, mas para ressaltar também a importância do que ficou registrado em suas obras” – afirma.
Ela destaca ainda que os livros têm a capacidade única de revelar a essência humana em suas múltiplas dimensões. “Eles nos mostram como são variados os sentimentos, as fantasias, os sonhos, os defeitos e as qualidades que nos tornam criaturas humanas” – frisa.

Trajetória consolidada
São Mateus – Com trajetória consolidada, em especial no gênero da ficção, Bernadette Lyra prefere não escolher uma obra favorita entre seus livros. Para ela, cada trabalho carrega uma parte de sua identidade. “Cada livro meu representa muito para mim. Todos são resultado de um trabalho literário profundamente sincero, mergulhado em tudo que me cerca e nas experiências sonhadas ou vividas” – explica.
A autora ressalta que as raízes dela no Norte do Espírito Santo são uma fonte constante de inspiração. “Em todos eles [livros] estão fragmentos de mim mesma e de minhas origens, nascida que sou no território do Norte capixaba, à beira do mar e na presença soberana do nosso Rio Cricaré” – enfatiza.
NOVIDADES
Bernadette Lyra frisa que os leitores dela podem esperar novidades para a Primavera deste ano. Ela afirma que acaba de concluir um novo livro, já enviado à editora. A obra, segundo a autora, acompanha a trajetória de uma menina desde o nascimento até a adolescência, abordando descobertas, fantasias e elementos que transitam entre o real e o imaginário. “Há muito da experiência das mulheres nessa fase da vida, incluindo a descoberta do amor e da ancestralidade” – adianta.
Mudança no cenário literário
São Mateus – Ao analisar o cenário atual da literatura brasileira, Bernadette observa que houve um aumento significativo na produção de textos. No entanto, observa que também trouxe mudanças no perfil das obras. “Hoje, pode-se dizer que há mais gente escrevendo do que lendo. Nem tudo segue os parâmetros da literatura canônica. Há muita influência da era digital, com o formato da literatura do eu, vindo dos blogs e redes sociais” – avalia.
A escritora destaca também a valorização crescente de temas sociais contemporâneos. “Há uma predominância dos conteúdos sobre a forma, com foco em identitarismos e questões sociais. No mais, a literatura segue seu percurso e cada pessoa que escreve tem seus ideais e razões” – defende.

Mônica Porto prepara uma nova obra sobre ficção. Foto de Daniel Soares/Divulgação
Fortalecimento e valorização da escrita
São Mateus – Para a escritora mateense Mônica Porto, a data é um momento que vem como fortalecimento e valorização da leitura e da escrita. “Tanto para incentivar o hábito da leitura, mas também para a comercialização, porque, nós, infelizmente, ainda não somos um país leitor. Sou professora de Língua Portuguesa e convivi muito tempo com crianças que não tiveram incentivo ao hábito da leitura. Então, essa data vem para fortalecer e valorizar esses aspectos” – sustenta.
Mônica Porto destaca a primeira obra publicada, em 2016, como uma das mais importantes da sua trajetória até o momento. Ela salienta que o livro Um Caçador de Pipas de Outro Mundo abriu portas para as demais obras.
“Esse livro foi dedicado aos meus alunos em honra aos 13 anos atuando na educação, além de ser o primeiro, então não posso deixar de citar. A obra retrata bullying racial, onde o protagonista é um menino preto que sofre no ambiente escolar e vive uma aventura saindo desse espaço e, ao chegar em outra dimensão, ele é valorizado e homenageado. Já o Dores de Ébano é um livro mais recente, ele vem como muitos gritos focados de muitos pretos e pardos que não puderam falar das dores que sentem e não puderam escrever suas próprias histórias, o livro traz esses gritos que estão de certa forma sufocados, também precisa ser destacado” – avalia.
Do infantojuvenil ao romance
São Mateus – Mônica Porto salienta que está reunindo poemas já escritos e preparando um novo livro para ser lançado em breve. Destaca também que migrou do gênero infantil e poético para se aventurar em seu primeiro romance.
“Estou apaixonada por essa história que não tem nem nome ainda, mas já me ganhou. É uma obra fictícia, que se passa nos anos de 1800 até 1880, no Porto de São Mateus, um pouco antes da dita abolição da escravatura. Mas, apesar de ser uma obra fictícia, está sendo escrita com muito trabalho de pesquisa no contexto filosófico daquele momento” – detalha.
A escritora considera que, em relação à literatura brasileira, “está muito animada” com as boas notícias desse universo. “Tivemos notícias de que, em 2025, aumentou muito o número de leitores no Brasil, em especial de mulheres pardas e pretas das classes B e C. Eu, como mulher preta, fiquei muito feliz ao saber dessa inserção na literatura. Além de leitoras, são mulheres que também estão escrevendo suas perspectivas e sua ótica. É uma fresta, mas já me deixa muito feliz”.
Por outro lado, diz observar, como professora, que muitos jovens não leem, o que considera como preocupante. “Vejo que a língua portuguesa tem sido menos usada de forma culta e correta. São muitas abreviações e pouca escrita. Por isso, o incentivo à leitura é tão necessário” – complementa.
DIA MUNDIAL DO LIVRO
O Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, foi instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1995 para incentivar a leitura, homenagear autores e refletir sobre direitos autorais. A data foi escolhida por marcar o falecimento de renomados escritores em 1616: William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Veja. (Fonte: Unesco).

