Aos 29 anos, a mateense Nathane Cadorini Fabem figura entre os esportistas capixabas de maior destaque em 2019. Para alcançar o sucesso, no entanto, ela teve que superar adversidades, entre a quais a saudade da família, o machismo e a estrutura deficitária do futebol feminino. E como atingiu o sucesso? Com a convicção que “o importante é não desistir”. A raça e a sede de gols demonstradas dentro de campo são características da personalidade da jogadora que contribuíram para que vencesse as adversidades e fosse consagrada como artilheira da América do Sul, feito equivalente ao de Gabigol no futebol masculino.

Campeã brasileira sendo artilheira da equipe, vice-campeã e artilheira da Copa Libertadores, terceira colocada no Campeonato Paulista e artilheira e campeã dos Jogos Abertos de São Paulo, sempre vestindo a camisa grená da Ferroviária, equipe tradicional do futebol de São Paulo. Com tantos títulos na bagagem, Nathane passa férias com a família em São Mateus e recebeu a Rede TC para uma entrevista exclusiva.

Nathane foi artilheira da Copa Libertadores. Foto: Divulgação

Com a mesma humildade dos tempos em que iniciava no futsal mateense, ela falou sobre a carreira, as dificuldades, os pedidos de torcedores para que seja convocada para a Seleção Brasileira e sobre as carências do futebol feminino, no contexto nacional, mas também capixaba. Quando o assunto foi a família: emoção e brilho nos olhos! O apoio dos pais Waldeia e Eliezer e de outros familiares garantiu energia para que mantivesse a luta, superando os momentos de angústia.

Rede TC – Campeã brasileira, vice-campeã e artilheira da Copa Libertadores, terceira colocada no Campeonato Paulista e artilheira e campeã dos Jogos Abertos de de São Paulo. Nathane, esta é a melhor temporada da carreira? Como avalia este momento?
Nathane Cadorini Fabem – Minha carreira é um pouco curta. Eu comecei jogando mesmo, para valer, com 18 anos. Fui para Minas e vi que não estava rendendo tanto. Aí decidi voltar, fiquei três anos aqui no Espírito Santo, morando e estudando. E daí tive uma proposta para ir para Manaus, onde comecei a jogar valendo mesmo, acho que tem quatro anos só. Então este ano foi um dos meus melhores mesmo, com certeza.

Rede TC – Quais foram essas adversidades de início de carreira?
Nathane – O futebol ainda é difícil. Porém dez anos atrás era um pouco mais difícil. Hoje vem evoluindo bastante. Eu jogava futsal aqui em São Mateus, com o André Cajarana, no time da Prefeitura. Daí conheci um time e as menina falaram, ‘vem jogar o Estadual cá’, que é o Iguaçu, de Ipatinga. Fui, tinha uns 18 anos. Joguei lá, fui para o Atlético, fiquei um ano e dois meses. Depois segui para Brasília, no Ascoop, e fui para o Minas (DF). Daí de Brasília, fiquei mais meia temporada em Ipatinga, de novo, e acabei voltando. Recordo dos muitos times em que passei, porque foram tantos, o futebol feminino é assim. Era meio difícil. O que falo para muitos é que a gente não pode desistir, e isso ajudou bastante. A maior adversidade foi ficar muito tempo longe dos meus pais. Não era acostumada. Saí com 18 anos, meio tarde. Ficar longe dos meus pais era um pouco difícil. Mas, hoje em dia, a gente se acostuma, é o nosso trabalho. Mas a distância dos pais, da família, perder as festas, perder algumas coisas entre família, isso foi bem ruim para mim. É ruim, porém, é meu trabalho e sou feliz com isso.

Nathane: “A maior adversidade foi ficar muito tempo longe dos meus pais”. Foto: Wellington Prado/TC Digital

Rede TC – Sofreu algum tipo de preconceito? Como conseguiu superar os desafios e alcançar o sucesso no futebol feminino, que ainda não tem estrutura e apoio necessário?
Nathane – Todo mundo fala que futebol não é para mulher. Mas temos que mostrar, até para nós, que a gente consegue muito mais coisa que eles acreditam. Graças a Deus, nunca tive um caso direto de preconceito. Mas escutava pessoas falarem que futebol não é para mulher. Mas não dou muita bola para isso. Eu não gostava muito que as pessoas fossem ao estádio e começassem a chamar a gente de gostosa e coisas assim. Não acho isso legal porque estamos no campo para jogar, é o nosso trabalho, não para ficar ouvindo essas coisas. Isso tudo foi muito difícil. Mas a gente tem muitos objetivos e tenta focar. E quando dá saudade da mãe, ligamos. Eu ligo todo dia para a minha mãe. Se não falar com minha mãe todo dia, eu e ela sentimos falta de alguma coisa. Então a gente vai dando jeito para as coisas. Sempre quando tem tempo, dou um pulinho aqui em São Mateus. É longe de onde estou, mas sempre que posso dou um pulinho aqui. No começo do Campeonato Brasileiro, minha mãe foi num jogo lá. Nossa! Fiz o gol da vitória no jogo contra o Foz do Iguaçu, que ficou de 2 a 1. Estava sendo reserva e entrei, teve o pênalti e fui bater. Depois do jogo, a gente chorou muito. Depois disso comecei a ser titular. É muita emoção!

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Rede TC – Naquele início, com 18 anos, você imaginava que um dia seria a artilheira das Américas?
Nathane – Não imaginava. Primeiro jogo da Copa Libertadores, fiz cinco gols. Falei, estou vivendo um sonho! Ligava para minha mãe, desacreditando. A gente pede muita a Deus, e Ele é muito justo nas coisas. Essa luta que a gente tem, no trabalho que é muito pesado, conseguimos colher os frutos. Conseguimos colher muitos frutos do que plantamos.

Rede TC – Qual a importância que a família teve neste sucesso?
Nathane – No começo foi bem difícil. Saí com 18 anos, uma menina do interior. Minha mãe no começo ficou meio relutando, mas depois viu que era realmente o meu sonho. Aí foi uma maravilha. Sempre estiveram do meu lado, ela, o meu pai, o meu irmão mais velho e o meu irmãozinho. Um pouco de cada, um ajudando o outro, isso foi muito bom. Na verdade, a minha família inteira me apoiou. Minha avó, Dona Neiva, sempre me liga. Meu tio Kiko, meu padrinho, o Valmar. Se for falar todos os nomes… Minha amiga Shayna, daqui de São Mateus. Tem minha amiga também que está morando fora, a Karen. Minhas duas amigas e minha mãe, a gente conversa o dia inteiro. Isso, e o foco que a gente tem, é importante para aguentar muita coisa. Neste ano, no começo não estava dando muito certo, estávamos perdendo e empatando, uma atrás da outra. Porém conseguimos evoluir e muita gente me ajudou.

Rede TC – Além da família, quais foram as outras pessoas que marcaram sua história e tiveram papel importante na carreira?
Nathane – Sem dúvida, o André [Cajarana], daqui de São Mateus. Ele teve papel importante demais. Quem conhece, sabe o tanto que ele cobra da gente. Aprendi muito com ele, muitas coisas. Sempre que eu vinha aqui, a gente marcava amistosos, mantinha contato. Hoje em dia, nem tanto, porque é muito mais correria. Mas ele, o André Cajarana, teve um papel fundamental na minha carreira, desde o início.

Rede TC – Nos últimos anos, houve uma melhora na estrutura do futebol feminino brasileiro, ou a situação ainda continua precária? O que falta para, enfim, as jogadoras brasileiras trabalharem com estrutura adequada?
Nathane – Evoluiu bastante, antes não tinha Campeonato Brasileiro. Mas ainda falta o incentivo de estar sempre passando na TV. Foi muito bom a final do Brasileiro passar na televisão, uma conquista muito grande para a gente. Porque visibilidade atrai patrocínio e a estrutura acaba melhorando. Conseguiram comprar uma parte da Ferroviária, então ela está vindo com tudo de novo. Esse incentivo de visibilidade é muito importante.

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Rede TC – Como avalia o trabalho da CBF voltado ao futebol feminino? O que pode ser feito?
Nathane – Falta mais um pouco de força de vontade da CBF. Eles têm muita coisa para melhorar. Tiraram a Copa do Brasil e colocaram o Brasileiro, mas ainda não está bom. Falta estrutura maior da CBF para dar visibilidade, um pouco mais de apoio no futebol feminino, pois a diferença é muito grande para o masculino. Esse apoio que a CBF tem que dar ao futebol feminino é muito maior. Não adianta, sempre a gente vai querer o melhor. Não é porque colocaram o Campeonato Brasileiro que já estamos felizes. A gente ainda quer mais. Sempre estamos procurando, principalmente as meninas que jogaram muito tempo atrás, procurando ver melhorar, brigar por melhor estrutura. Foi bom a regra da Libertadores que o clube masculino que tiver na Libertadores precisa ter um time feminino, acabou ajudando bastante. Está rolando inclusive o Campeonato Brasileiro Sub-17. Porém uma coisa que a gente reclama muito é o calendário. O calendário é absurdo. Por exemplo, Brasileiro Sub-17 começando agora. Como o Brasileiro começa no fim do ano? E as meninas ficam com jogo um dia sim, e um dia não. Cara, ninguém é robô. Não aguenta, são pessoas. A gente reclamou também neste ano. O Brasileiro foi em cima do Campeonato Paulista, um jogo atrás do outro. E teve ainda a Libertadores. A gente não passou para a final do Paulista, foram o Corinthians e São Paulo. Mas o Corinthians foi para Libertadores, voltou e já tinha final do Paulista. As meninas viajaram, e quatro dias depois teve uma final.

Rede TC – O futebol capixaba masculino carece de maior estrutura. O futebol feminino tem vivido à custa de inciativas de alguns amantes do esporte, com muitas dificuldades. Como avalia o cenário local, mateense e capixaba?
Nathane – Eu joguei aqui… A gente joga mais por amor. Isso acaba ajudando um pouco. Mas falta incentivo também. Num Estado que não tem incentivo no masculino, imagina no feminino. É muito mais difícil. Outra coisa absurda: no final de semana teve um jogo final do Futebol Sete e final do Estadual. As meninas do Vila Nova (equipe da Grande Vitória) jogaram de manhã e à tarde, no mesmo dia. É falta de planejamento, de organização. Mas espero que pelo menos seja dado o necessário.

Rede TC – Você esteve no Flamengo, clube de repercussão nacional. No primeiro ano na Ferroviária já alcançou o sonhado título brasileiro e brilhou como artilheira da Copa Libertadores. Quando optou pelo clube paulista, você esperava esse sucesso? Por quê?
Nathane – Não esperava. A gente tem objetivo e não vai parar até conquistar. No Flamengo, as coisas não deram certo, infelizmente. Gostei muito de jogar lá. É um clube muito bom. Principalmente tem que agradecer a Marinha, porque faz um papel muito importante no futebol feminino, numa parceria com o Flamengo. Da parte do Flamengo ainda falta um apoio maior. Mas lá não tive tantas oportunidades. Aí pensei, prefiro ir para a Ferroviária, porque é a primeira vez que jogo no futebol paulista. Uma amiga minha saiu para o Corinthians e falou que o Campeonato Paulista é muito bom e eu acabaria pegando mais experiência. Pensei ‘vai me ajudar muito, na questão da experiência, jogar num campeonato muito forte’, e acabei indo para a Ferroviária. Graças a Deus deu tudo certo.

Rede TC – Você foi convocada para a Seleção Brasileira, há dois anos. Com o brilho nesta temporada, torcedores da Ferroviária e de outros clubes têm pedido a sua convocação. O que ainda falta para a técnica Pia Sundhage ser justa e convocá-la? Já não chegou o momento de uma oportunidade maior com a camisa canarinha?
Nathane – Sempre falo quando meus amigos mandam mensagens, ‘alô, Pia, me convoca! Mas falo brincando. Acho que não tenho tanto objetivo de ir para a Seleção. Tem muitas meninas que jogam muito bem. O meu objetivo maior é conquistar os títulos nos clubes que eu jogo. Para mim, o objetivo é conseguir coisas boas para meu clube.

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Rede TC – Mas não pensa em Seleção?
Nathane – A gente pensa, mas, porém, esse não dá para ser o objetivo, pois não sabemos como é que funciona. Tinha que tirar um pouco o foco disso, pois acaba atrapalhando. Se pensar e acabar não sendo convocada, aí vou ficar brava. Estou dando o meu melhor no meu clube, aí se aparecer é consequência. Jamais vou recusar uma convocação.

Rede TC – Ficamos sabendo que você tem recebido sondagens de outros clubes brasileiros e do exterior? Em 2020, onde Nathane atuará?
Nathane – Isso é uma interrogação, e todo dia converso com meus pais. Está um pouco em off e um pouco complicado para resolver. As coisas vão dar certo no tempo certo. Tive proposta para renovar com a Ferroviária, proposta do São Paulo, porém ainda não sei o que farei para o ano que vem. Mas, se Deus quiser, vou escolher a melhor coisa para o ano que vem e conquistar mais títulos. Até o fim desta semana devo definir, porque o Brasileiro do ano que vem começa em fevereiro, cedo, por causa dos Jogos Olímpicos. A tendência é ficar no Brasil. Tenho proposta de fora, mas vamos ver como vai acontecer. Tem muitas coisas que pesam. Acabei me acostumando muito com a Ferroviária, a cidade é muito boa, os torcedores apoiam muito e isso acabou fazendo com que eu tenha uma paixão pelo clube. Então, talvez devo renovar com eles.

Uma das possibilidades de Nathane é permanecer na Ferroviária. Foto: Divulgação

Rede TC – Já pensou em disputar os Jogos Olímpicos em 2020?
Nathane – Se não me convocaram agora, que a treinadora trocou um pouco do time, imagina para a Olimpíada. Mas está bom, não dá para ter um objetivo na Seleção. A gente nunca sabe o que acontece. Ninguém sabe o que passa, como são as convocações.

Rede TC – Quais são os seus sonhos ainda no futebol?
Nathane – Quero ser campeã brasileira de novo, ser campeã da Libertadores, que a Ferroviária vai disputar novamente ano que vem. Nosso objetivo é conquistar campeonatos. A artilharia não importa tanto, mas é fruto do que a gente faz. É uma consequência. O objetivo maior é ser campeã.

Rede TC – Para terminar, qual a mensagem que você deixa para as jogadoras mateenses que estão iniciando no futebol feminino?
Nathane – Até recebi uma mensagem de um pai, de São Mateus, falando para marcar um café para a filha me conhecer, porque o sonho dela é jogar futebol. Eu falei, lógico. É esse incentivo que a gente tem que dar. Antes não tinha tanta menina jogando futebol cedo, e hoje a gente vê escolinhas, muito incentivo pelos pais. Antes era muito mais preconceito, hoje nem tanto. Esse não desistir que eu tive, que me ajudou bastante em ter um ano deste. Eu pensei em desistir, eu pensei em parar. Na Ferroviária mesmo. Mandava mensagem para minha mãe. É muita pressão. A gente estava empatando, as coisas não estavam dando certo. Mas depois parei para pensar. Não, não vou desistir. Eu amo futebol, independente de onde eu esteja jogando, darei o meu melhor. Então isso foi muito importante: esse não desistir, ter objetivos, ter sonhos. E ajudou também o incentivo dos meus pais. A mensagem é que o importante é não desistir. Tem o sonho, um objetivo, corre atrás que tenho certeza que vai conquistar.

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