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De filhos de trabalhadores a futuros médicos

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Por Wellington Prado – Repórter

São Mateus – Durante anos, o sonho de cursar Medicina parecia exigir dos jovens de São Mateus uma escolha difícil: deixar a cidade, a família e suas raízes para buscar uma vaga em outra região. Desde segunda-feira (10), com o início do curso de Medicina no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), esse cenário muda.

Entre os primeiros estudantes da nova graduação estão três jovens mateenses que carregam histórias diferentes, mas compartilham o mesmo sentimento: a emoção de ver um sonho, muitas vezes distante, finalmente se tornar realidade.

Na cerimônia que marcou o início da primeira turma, estavam as calouras Lorrayne Ribeiro do Nascimento, filha de lavradores do Km 23; Evilyn Teixeira Ferreira, filha de produtores rurais da comunidade quilombola de Divino Espírito Santo; e Eduarda Baião Cunha, filha de um carteiro e de uma professora.

As três representam uma conquista que vai além da aprovação em uma universidade. Para elas e suas famílias, significa ter a oportunidade de cursar Medicina em uma instituição federal, pública e gratuita, sem precisar deixar São Mateus.

Segundo o Ceunes, há ainda um quarto morador de São Mateus na primeira turma, mas ele não foi localizado pela Reportagem.

“É um orgulho muito grande”

 Aos 20 anos, Lorrayne Ribeiro do Nascimento sabe o quanto foi difícil chegar até ali. Antes de conquistar uma vaga na primeira turma de Medicina do Ceunes, ela já havia tentado ingressar no curso em outras universidades, como a Federal de Minas Gerais (UFMG) e a própria Ufes, em Vitória.

Filha dos lavradores Jaime do Nascimento e Josilene Ribeiro do Nascimento, Lorrayne estudou o ensino médio na Escola Estadual Nestor Gomes. A aprovação no Ceunes teve um significado ainda maior por permitir que ela realize o sonho sem precisar se afastar da família.

“É uma conquista muito grande porque a gente nunca imagina que vai passar. É um orgulho ter passado, ainda mais com o curso estando abrindo agora, sabendo que tão poucas pessoas daqui da cidade passaram. É um orgulho muito grande” – afirma.

Quando recebeu a confirmação da aprovação, Lorrayne conta que demorou a acreditar. “Eu fiquei meio anestesiada. A gente não entende muito o que está acontecendo, mas depois fica feliz”, lembra.

A felicidade também tomou conta da casa da família. O pai, Jaime, é cardíaco e não pode trabalhar, enquanto a mãe, Josilene, continua ao lado da filha na caminhada.

São histórias como a de Lorrayne que dão uma dimensão ainda maior ao significado da chegada do curso de Medicina do Ceunes.

“Eu não imaginava isso”

Aos 18 anos, Evilyn Teixeira Ferreira também vive a emoção de fazer parte da primeira turma de Medicina do Ceunes. Filha dos produtores rurais Cláudio Ferreira e Rosânia Teixeira Ferreira, moradores da comunidade quilombola de Divino Espírito Santo, em São Mateus, ela vê na aprovação a realização de um sonho que nem ela mesma imaginava alcançar tão cedo.

“Eu acho isso muito gratificante. Me sinto orgulhosa também porque eu não imaginava isso. E minha família também ficou muito feliz, muito alegre” – conta.

Evilyn estudou o ensino médio na Escola Estadual Ceciliano Abel de Almeida e conquistou a vaga com a nota do primeiro Enem que prestou, em 2025.

A aprovação, no entanto, demorou a ser assimilada. “Eu não esperava. De início, não acreditava. Pensava que tinha alguma coisa errada. Depois caiu a ficha de que eu tinha passado. Procurei saber também para ver se estava tudo certo, mas fiquei muito feliz” – recorda.

Para a jovem, a chegada da Medicina ao Ceunes representa não apenas uma oportunidade acadêmica, mas a possibilidade de construir o futuro sem abandonar suas origens.

“É um sonho meu e da minha família”

Moradora de Guriri, Eduarda Baião Cunha, 20 anos, também viu na chegada do curso ao Ceunes a oportunidade de realizar um sonho que exigia, até então, sair de São Mateus.

Filha do carteiro Eduardo Ferreira e da professora de ensino fundamental Giane Baião, ela conta que a aprovação foi construída com o apoio diário dos pais.

“É uma realização muito grande, porque é um sonho meu juntamente com a minha família. A gente ia ter que acabar mudando para fazer o curso e teria um custo de vida um pouco elevado. Com a chegada do curso, acabou facilitando as coisas e tornou mais possível a realização desse sonho”, afirma.

Eduarda estudou o ensino médio no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em Santa Teresa. Antes disso, frequentou a Escola Estadual Wallace Castelo Dutra, em Guriri.

Durante a preparação para o vestibular, os pais estiveram ao lado da filha em cada etapa.

“Eles me ajudaram muito, me apoiaram durante o sonho, me ajudaram no ano de cursinho, pagando os custos e me ajudando com o tablet para facilitar os estudos. Eles foram muito importantes para a minha aprovação” – reconhece.

Agora, ao lado de Lorrayne e Evilyn, Eduarda começa uma nova etapa da vida dentro da primeira turma de Medicina do Ceunes.

Três jovens, três histórias e uma mesma conquista: poder sonhar com a profissão de médica sem precisar deixar para trás a cidade, as famílias e as raízes que ajudaram a construir esse sonho.

Evilyn, Lorrayne e Eduarda, três jovens mateenses que se encontram na realização de um sonho: cursar Medicina em uma universidade federal, pública e gratuita, sem precisar deixar São Mateus. – Foto: Wellington Prado/TC Digital

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