Dizem que o Brasil é o país do futuro, às vezes acredito. Mas basta olhar para a BR-101 e perceber que, em alguns trechos, ainda estamos viajando pelo passado.
A rodovia começou a ser construída na década de 1950. Naquele tempo, o sonho de consumo era um Fusca. Debaixo do capô moravam poucos cavalos pangarés, que mal conseguiam trotar, porém eram cavalos obedientes. A estrada, com velocidade de 80 km/h, fazia sentido para uma época em que ultrapassar um caminhão era quase um ato de heroísmo com o Fusca 1.300 e o trânsito era infinitamente menor.
O tempo passou.
Os carros mudaram.
Hoje há motores com uma verdadeira manada de cavalos escondida sob o capô. São veículos equipados com freios melhores, estabilidade, controle eletrônico e tecnologia que os engenheiros da década de 1950 jamais imaginariam.
Mas, curiosamente, esses cavalos continuam obrigados a puxar uma charrete. Não porque sejam incapazes de correr, mas porque a estrada permaneceu presa ao passado.
Agora surge a novidade: radares de velocidade média. A promessa é aumentar a segurança. Segurança é importante, ninguém discute.
O problema é quando a solução mais rápida parece ser fiscalizar, e não modernizar.
A lógica acaba parecendo estranha. Em vez de investir na duplicação da BR, na eliminação de curvas perigosas, em acostamentos adequados e trevos seguros, instala-se mais um radar. Depois outro. E mais outro. A impressão que fica para quem percorre a rodovia é que ficou mais fácil medir a velocidade dos motoristas do que acelerar as obras.
Uma estrada duplicada salva vidas porque reduz colisões frontais, melhora o fluxo, diminui o tempo de viagem e traz desenvolvimento para as cidades. Caminhões chegam mais rápido, ambulâncias circulam com mais segurança e famílias viajam com menos medo.
Já duplicar o número de radares produz outro efeito: aumenta a arrecadação e multiplica a sensação de que o motorista paga a conta de uma infraestrutura que nunca acompanha a evolução do país.
Talvez o verdadeiro problema não seja o Fusca de ontem nem os carros de hoje. O problema é insistir em tratar uma rodovia do século XXI com soluções que não substituem o investimento que ela espera há décadas.
Duplicar a estrada melhora a vida de todos.
Duplicar os radares melhora, sobretudo, o bolso de poucos.
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(*Quirino dos Santos é escritor com formação em Filosofia.)





