O famoso psicólogo e psiquiatra Carl Jung (1875-1961), discípulo de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicologia moderna, um dia disse: “Nenhum dos meus clientes foi realmente curado sem ter, previamente, recuperado a visão religiosa”. O perdão das ofensas é um dos temas, que mais envolve a nossa vida humana; é, também, o tema mais abordado pelo Evangelho. Em torno dele, gira, com efeito, toda a radicalidade da moral do Novo Testamento: condição indispensável para sermos perdoados é perdoar de coração as ofensas recebidas. Talvez, por ser tão difícil perdoar, explica a insistência de Jesus sobre este tema: no Seu ensino, nas Suas parábolas e no Seu próprio exemplo pessoal.
No início dos tempos, vigorava a lei da vingança, cega e sem medida. Lamec confessa: “Por uma ferida mateis um homem e, por um arranhão, um jovem. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec o será setenta vezes sete”. A lei mosaica do talião, “olho por olho dente por dente”, veio superar esta lei cruel: a vingança devia ser proporcionada à ofensa recebida.
Nas escolas rabínicas, eram tratados pontos duvidosos do Antigo Testamento: o primeiro mandamento, o sábado, a lei do puro e impuro, o divórcio, o tributo a César, o primeiro no Reino dos Céus, e, também, “quantas vezes devo perdoar?”. A pergunta de Pedro mostra que o perdão das ofensas era uma questão bastante discutida entre os hebreus. Pedro tinha aprendido que, para um discípulo de Jesus, era indispensável perdoar de coração as ofensas recebidas, para sermos perdoados. Por isso, pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?”.
Em sua resposta, Cristo revela que as medidas até então consideradas válidas, não serviam mais. Por isso, subverte bruscamente os números apresentados e desafia o discípulo, dizendo: “Não sete vezes, mas, setenta vezes sete”. Uma multiplicação, cujo resultado não é uma determinada cifra, mas, uma atitude de vida: é preciso perdoar sempre. O perdão não tem tabela, tarefa, ou limites precisos: não pode ser um ato heroico isolado, nem uma exceção ocasional: deve representar uma praxe normal da vida cristã, parte integrante da nossa contabilidade ordinária. Não pode ser uma atitude seletiva, nem discriminatória: deve refletir a condição existencial de quem se sente filho de um Pai, que ama a todos os seres humanos, indistintamente.
Para recuperar o valor do perdão, o Evangelho oferece duas indicações concretas: considerar a dívida imensa, que temos perante o Pai Celeste e a consciência da nossa impossibilidade em poder liquidá-la. Diante de Deus somos eternos devedores: ao longo da nossa existência terrena, ele, de fato, nos cobre de presentes; a nossa dívida de gratidão nós a pagamos, concretamente, através do exercício diuturno do perdão. Deus, que é Amor, dá um perdão total e gratuito: perdoar, assim, quem nos ofendeu é possível, pois o homem, imagem de Deus, perdoando, se torna reflexo, perante o mundo, do amor de Deus, de Sua misericórdia e bondade sem limites. A nossa humanidade está precisando, mais do que nunca, de reconciliação e paz, para ter plenitude de vida, esperança e alegria.
*(Padre Ernesto Ascione é missionário comboniano.)





