Jesus “ao saber da morte de João Batista –informa o Evangelho– partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado”: de Cafarnaum –vilarejo, posto no lado ocidental do lago de Tiberíades, naquele tempo, muito povoado– o Divino Mestre se desloca para o lado oriental, lugar desértico e solitário. O deserto, na Bíblia, é o lugar de encontro com Deus: lá, se aprende a confiar, a desapegar-se das seguranças humanas e a reconhecer que tudo é dom gratuito de Deus. É, também, o lugar da partilha, pois, cada um, no deserto, depende do cuidado e da solidariedade dos outros, para sobreviver e se manter.
“As multidões, ao saberem disso, –diz ainda Mateus–, saíram das cidades e O seguiram a pé”. “As multidões” –na tradição bíblica– são imagem da Igreja: “A Igreja –diz o Concílio– é um povo, que tem por cabeça Cristo, por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, por mandamento, o mandamento novo, e, por missão, edificar no mundo o Reinado de Deus”. A Igreja, –prolongamento de Cristo, no tempo e no espaço–, é composta de todos aqueles que querem ver, ouvir e estar com Cristo; é o instrumento, escolhido por Deus, para salvar o homem todo e todos os homens; ela não é a finalidade, mas, apenas, um meio.
Santo Agostinho compara a Igreja à lua: fala do “mysterium lunae”. Cristo é o sol, que transmite Sua luz à lua (a Igreja); Ele é “a videira, de que a Igreja o ramo; é a cabeça de que a Igreja é o corpo; o esposo de que a Igreja é a esposa: ela é nossa mãe e mestre”. Comunidade toda ministerial e carismática está a serviço do Reinado de Deus: seu grande desafio é manter a unidade na diversidade. Querida pelo Pai, fundada pelo Filho e vivificada pelo Espírito Santo é aliada de todos os que lutam por um mundo melhor, também, se forem de outras crenças e culturas, até mesmo, ateus, porém, comprometidos com a justiça.
“Ao sair do barco, Jesus viu essa numerosa multidão: moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes”. Os discípulos, assim, confiantes, pedem-Lhe que providencie: “Despede a multidão – Lhe sugerem – para que possa ir aos povoados, comprar comida”. Mas, Jesus os desafia, com uma palavra, que ressoa forte até hoje: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Seguir Jesus é comprometer-se com a dor humana; é ser solidário com quem anda na tristeza e abandonado; é partilhar, concretamente, com os necessitados.
Os bens, que possuímos não são nossa propriedade exclusiva –ensina a Doutrina Social da Igreja, “sobre os bens materiais pesa uma hipoteca social”–: o que nos foi confiado é para ser posto a serviço do bem comum. A Igreja de Cristo é um povo novo, libertado do egoísmo, alimentado pela gratuidade e unido no amor; nela, o pouco se transforma em abundância e o medo em generosidade, e aqueles que creem se tornam disponíveis, para servir e amar a todos, por primeiro e sempre, sobretudo, os mais fragilizados e marginalizados.
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(*Padre Ernesto Ascione é missionário comboniano.)




