Quando pensamos em um jardim botânico nos vem à mente um local tranquilo, bom para descanso e lazer em família ou com amigos. Quem não gosta de sentar-se à sombra de uma árvore, sentir o aroma das plantas, sentir-se parte integrante da natureza?
Os jardins botânicos podem oferecer tudo isso e muito mais! O que muita gente não sabe é que a missão destas instituições vai além do plantio, manutenção e exibição de coleções vivas de plantas.
Os jardins botânicos têm papel de destaque na conservação da biodiversidade e na sensibilização do público sobre a importância dos recursos vegetais, integrando técnicas de conservação in situ (aquela em que as espécies são protegidas em seu próprio ambiente) e ex situ (quando as espécies são cultivadas fora de seu ambiente natural, em coleções). As plantas que compõem suas coleções são identificadas por especialistas, catalogadas e acompanhadas por todo seu ciclo de vida.
O número de jardins botânicos brasileiros, entretanto, ainda é insuficiente para atender à demanda de conservação das espécies ameaçadas pela devastação e expansão das fronteiras urbanas e agrícolas. Para se ter uma ideia, um estudo abrangente realizado no Espírito Santo em 2019, coordenado pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica, em Santa Teresa, apontou mais de 750 espécies de plantas com algum grau de ameaça de extinção no nosso estado. E, mais assustador, algumas delas não tem registro de ocorrência em unidades de conservação públicas ou privadas.
Por esse motivo, associado também à necessidade de mais áreas verdes em São Mateus, onde a população possa desfrutar de bens da natureza, o Ceunes criou, em 2019 o Jardim Botânico Palmarum, em seu campus. Neste espaço, de livre acesso à população, entre as mais de 1000 árvores já plantadas desde o estabelecimento do campus, se encontram 20 espécies dentre aquelas apontadas como ameaçadas de extinção em nosso estado. É um número pequeno diante do total de espécies ameaçadas, mas representa um programa de conservação ex situ a ser expandido e aperfeiçoado.
O Jardim Botânico Palmarum está colaborando com iniciativas globais de tentar reverter a situação crítica de extinção de espécies e assim cumprir uma das missões dos jardins botânicos contemporâneos. Hoje, mais e mais jardins botânicos, em diversos partes do mundo, envidam esforços para conter os graves problemas ambientais decorrentes da destruição e fragmentação de habitats e da alta taxa de extinção de espécies.
Por adotarem, em seus documentos norteadores, estratégias propostas por convenções e tratados internacionais, os jardins botânicos contemporâneos dão ênfase à educação, pesquisa e uso sustentável dos recursos vegetais, garantindo assim mais sucesso e maior abrangência nas ações de conservação e de manutenção de suas coleções de plantas.
Desse modo, enquanto espaço de formação, promovem ações e atividades para destacar a importância conhecimento sobre as plantas para a vida das pessoas e para os ecossistemas locais. Ao chamar a atenção para as ameaças que as plantas e os habitats enfrentam, os jardins botânicos podem ajudar a sociedade a pensar e repensar em formas de proteção da biodiversidade.
O contato do ser humano com a natureza tem sido cada vez menor, em vista do crescente processo de urbanização e das políticas de incentivo a uma agricultura voltada ao mercado externo, baseada no modelo monocultor, ocasionando o êxodo rural e o crescimento da população urbana. No Brasil, aproximadamente 80% da população vive em cidades, longe das áreas naturais. O Espírito Santo reflete esse cenário, no qual, dos mais de 4 milhões de habitantes, apenas 600 mil vivem no campo, com acesso facilitado às áreas naturais.
Considerando esse distanciamento, como é possível despertar nas pessoas o amor e o desejo do cuidado por algo distante ou mesmo desconhecido? E mais além, como é possível torná-las guardiãs de um dos mais ricos patrimônios naturais do mundo? Promover o contato direto com a beleza e a diversidade encontradas na natureza, pode ser um meio eficaz de sensibilizar e conscientizar as pessoas. Conservar, individualmente, o sentido de natureza é essencial para manter vivo o interesse por ela.
Os jardins botânicos têm um potencial singular no processo de educar, principalmente o público que vive em centros urbanos, construindo conhecimentos e oportunizando experiências diretas com a natureza. São locais não formais de ensino que proporcionam, na prática, inúmeras possibilidades inter e multidisciplinares. Ao servirem de laboratório para um aprendizado prático e contextualizado, esses espaços podem conscientizar pessoas, despertando nelas o interesse por assuntos que as levem a questionamentos, a reflexões e, por consequência, estimulem a novas posturas. Somente com o incentivo à educação livre e de qualidade poderemos promover mudanças voltadas à preservação da natureza. Seguramente, quanto maior o número de pessoas afetadas por um “novo” pensar e agir, maior serão as chances de se chegar a um equilíbrio entre bem-estar social e integridade ambiental.
O professor Hugo Segawa, ao finalizar um artigo publicado na revista Ciência & Cultura, em 2010, utilizou um trecho escrito por K.G.Schelle no livro “A arte de Passear” que transcrevemos abaixo:
“Também o espírito humano tem sempre necessidade de conservar seu sentido de natureza, para manter vivaz o interesse que tem por ela. Como a amizade, o sentido da natureza precisa ser constantemente conservado por contatos, sem o quê o sentimento, tanto da amizade quanto da natureza, acaba por se extinguir completamente, mesmo nos corações mais sensíveis (…)”.
Convidamos você a fazer parte do time de apreciadores e guardiões do Jardim Botânico Palmarum. O Ceunes quer contar com seu apoio e com sua presença assim que pudermos confraternizar.
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(*Luis Fernando Tavares de Menezes, Vivian Estevam Cornelio e Elisa Mitsuko Aoyama são professores no Ceunes. **Ariane Luna Peixoto é pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.)
Foto do destaque: Ademilson Viana/TC Digital







