Por
Tatiana Milanez
Repórter
Na semana em que é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra –amanhã, 20 de novembro–, a vereadora Professora Valdirene, uma das poucas parlamentares negras no Estado, afirma que a cultura e a história afro-brasileira são pouco valorizadas em São Mateus. Além disso, segundo ela, as políticas públicas para a população afrodescendente são insuficientes no município.
“É preciso que as pessoas reconheçam que São Mateus é um município em que [boa parte da população] é negra. E de que forma isso faz? Através do respeito à história e cultura desse povo, porque se analisarmos, hoje nós quase não vemos a cultura negra sendo referenciada no município. Muito pelo contrário, hoje nós vemos uma cultura trazida de outros municípios para cá, mas as culturas que antes tínhamos e típicas do nosso povo nós quase não vemos” – argumenta a vereadora.
Na opinião de Professora Valdirene, é preciso respeitar a história e recordar nomes como Constância D’Angola, Zacimba Gaba, Negro Rugério, que trabalharam muito para que os negros pudessem ser libertados e que, segundo a parlamentar, atualmente não se ouve falar. De acordo com a vereadora, apesar da Lei 10.639/2003 –que prevê o ensino da história afro-brasileira nas escolas–, a aplicação da legislação ainda está distante da realidade do que ocorreu em São Mateus.

Foto: Divulgação
“A nossa cultura não é difundida, fica escondida nas entrelinhas dentro dos territórios, como, por exemplo, dos territórios quilombolas. Temos mais de 13 comunidades quilombolas em São Mateus e poucas pessoas conhecem e não existe o interesse. Percebo que não existe interesse dos gestores para que essas comunidades sejam vistas, que elas sejam reconhecidas. São poucas as políticas públicas desenvolvidas lá dentro” – alega Professora Valdirene.
Políticas para a população negra não são divulgadas, diz Professora Valdirene
A vereadora Professora Valdirene afirma ainda que as políticas públicas voltadas para a população negra precisam ser divulgadas para que essas pessoas tenham acesso em São Mateus, citando como exemplo a área da saúde. “Se a pessoa busca atendimento pelo SUS, por exemplo, lá tem políticas públicas, alguns tratamentos específicos para a população negra que a gente não vê sendo difundidos dentro do município. Nós temos políticas públicas em nível federal, mas que não chegam ao município. Existem, mas não são divulgadas para a população” – enfatiza a parlamentar.
Conforme a vereadora, a porta de acesso para essas políticas públicas são os Centros de Referência da Assistência Social (Cras). “Temos cinco em São Mateus, se não me engano, mas esses Cras, às vezes, estão longe da população. Um exemplo é o Cras do [Bairro] Porto, que atende pessoas até da Paulista, ou seja, longe, difícil de acessar. Falta muito para avançar” – frisa Professora Valdirene.
A DATA
Para a vereadora, o Dia Nacional da Consciência Negra não é uma data festiva, mas sim um dia de conscientizar sobre a importância do povo negro e a necessidade de melhorar as condições de vida dessa população. Ela destaca que o Brasil tem uma dívida histórica com a população negra e que é preciso trabalhar para que haja a devida reparação.
“O Brasil foi um dos países em que houve uma pseudolibertação da escravatura e não houve reparação. Os escravizados não foram reparados. Eles foram deixados à margem da sociedade pelas estradas, sem direito de adquirir terra, sem direito à educação, sem direito a nada. Então, esse país nos deve uma dívida muito grande” – afirma a parlamentar.
Nesse sentido, Professora Valdirene pontua que na próxima terça-feira (25) participa da Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, com o tema Reparação e Bem-viver, para discutir as políticas públicas daquelas que, na opinião dela, “gestam a população brasileira, que são as mulheres negras, e que mantêm a população”.
Culto ecumênico na Igreja São Benedito celebra nesta quinta-feira a cultura e resistência da população negra
Com programação variada, que inclui palestras, debate e apresentações culturais na Região Norte, a Semana Nacional da Consciência Negra contará com um culto ecumênico amanhã na Igreja São Benedito, em São Mateus, a partir das 9h. Presidente do Centro de Estudos da Cultura Negra do Norte do Espírito Santo (Cecunes) –uma das entidades organizadoras–, Eguinaldo Andrade afirma que as atividades iniciadas no dia 15 são oportunidades para reflexão e discussão sobre a realidade do povo negro e como melhorar as condições de vida dessa população.

Foto: Arquivo TC Digital
“Nós não tivemos reparação após a Abolição da Escravatura. Os escravos não foram indenizados, não receberam terra, não receberam educação. É preciso trabalhar para reparar essa dívida histórica” – frisa Eguinaldo, pontuando ainda que o tema da iniciativa neste ano é Celebramos Vozes, Histórias e Lutas que Construíram o Brasil.
O ativista mateense detalha que a programação da Semana circula pelos municípios de São Mateus, Nova Venécia, Boa Esperança e Conceição da Barra. Amanhã, Dia Nacional da Consciência Negra, o evento se concentra em São Mateus, com o culto ecumênico e outras atividades.
O encerramento das ações da semana de comemorações e reflexão referentes às causas da população negra será no sábado (22), na Vila de Itaúnas, em Conceição da Barra, com apresentações artísticas e culturais a partir das 9h.
Foto do destaque: Divulgação







